Adeus A.
Cheguei cansada de São José dos Campos tarde da noite, após deixar a Graça internada no veterinário depois da cirurgia de emergência.
Eu poderia comer qualquer coisa.
Não havia nada em casa. Não tive tempo para passar no supermercado nem na padaria nem nada. Minha única opção era comer um sanduíche na Sílvia, a lanchonete que fica na praça principal ao lado da igreja e única coisa aberta nas noites de São Francisco.
A Sílvia até sorriu quando me viu. A sumida.
Enquanto meu cheese-bacon-salada-enorme-com-tudo ficava pronto reparei no movimento na igreja velha, toda acesa e perguntei: o que aconteceu?
- Velório.
A igreja e a praça estavam lotadas de gente jovem.
- Quem morreu?
- Foi A..
Dali para frente fiquei quieta e não falei mais nada.
Sigilo médico.
Mas fiquei muito triste no meio de outras tristezas.
Fui eu que dei a notícia para A. que ela iria morrer alguns anos antes.
Nunca vou esquecer isso.
Eu já tinha dado notícias assim muitas e muitas vezes e no fundo estava cansada disso.
Quando chegou a vez de A., eu sentada em minha mesa fria de médica, abri o envelope, li o exame, olhei bem para ela e falei o que tinha dentro.
Depois me levantei, fui até ela, a abracei, ofereci um cigarro e a convidei para sentar na maca de exame ao meu lado.
Ficamos nós duas fumando e conversando por um bom tempo.
“Que merda, né?”
“É.”
Falamos sobre a vida. Como a vida era.
“Essas coisas acontecem, né?”
“É.”
Silêncio.
Mais cigarros.
“Foda, né?”
“Foda.”
Lá pelas tantas ela falou que estava bem e podia ir embora. Agradeceu muito nosso tempo juntas e me disse que ia continuar vivendo a vida dela normalmente. E que o jeito que eu a tratei tinha sido muito importante para ela.
Nos anos seguintes nos cruzamos pela cidade e ela sempre sorria para mim. Eu sorria de volta.
Nunca mais passou em consulta comigo.
Foi se tratar na cidade grande e eu me cansei de dar notícias ruins.




