Ecologia no Eco dos Outros É Refresco

Vou contar uma historinha meio comprida mas que vale a pena ler até o fim.

Tudo começou há mais de 11 anos atrás quando vim aqui para São Francisco Xavier e estava procurando terras para comprar.

Havia uma grande quantidade de terra para vender na serra, bem em cima da cidade, que pegava toda a face da montanha desde quase a Rua da Pedra até a fronteira com Monte Verde. Era chamada das Terras da Alemoa, porque a dona era uma alemã.

A mulher estava vendendo barato porque rezava a lenda ela tinha desmatado uma grande área e plantado pinus há muitos anos para depois cortar e ficar rica. Mas, ela não tinha conseguido autorização para o corte e a madeira estava lá há décadas e tudo aquilo então não tinha valor.

Na época, o terreno todo estava a venda por 400 mil reais e diziam que só de madeira tinha uns 900 mil.

Também na Alemoa estava a Cachoeira das Couves. A nascente e o rio que dá nome à minha rua, Rua das Couves, com uma enorme cachoeira linda. E o Rio das Couves sendo o rio que abastece toda a água da cidade de São Francisco Xavier. Ele desce a montanha e parte é desviado para a caixa d’água da SABESP para ser distribuido para todo o centro do povoado de uns 2 mil habitantes no máximo.

Bem, na época que cheguei por essas bandas havia duas abordagens para essas terras: alguém comprar para preservar ou alguém comprar para explorar a madeira que estava lá.

Eu tentei comprar para preservar.

Eu não tinha 400 mil reais, claro. Mas fiz outras propostas, apertei aqui, ali, falei com outras pessoas para juntarmos esforços mas não houve interesse nenhum de vender as terras para quem não fosse explorar a madeira do lugar.

Tempos depois, a região foi vendida para um grupo de investidores cujo representante era um senhor que veio morar aqui em São Francisco Xavier e logo virou persona non grata na cidade por ser o dono da Cachoeira das Couves e por dizer que iria explorá-la. A primeira coisa que ele fez foi fechar a cachoeira para visitantes.

Acredito que a segunda coisa que ele fez foi entrar com os processos de licenciamento para a exploração de madeiras de lá.

Para poder retirar as madeiras de uma Área de Preservação Ambiental, justamente naquele lugar, topo de morro, cercada de nascentes, nascentes que alimentam o rio que abastece a cidade, florestas com animais em extinção, corredores ecológicos e todos os contras que poderiam haver para se ter uma licença, este senhor teve que participar de processos públicos da ordem de Conselhos Gestores, ONGs, partidos políticos. Enfim, ele teve trabalho. Muito trabalho. E despesas.

Funcionários de órgão de licenciamento foram remanejados para outras cidades até. Gente perdeu o emprego, dizem.

No fim, ele conseguiu a licença para retirar a madeira da área.

Durante esse tempo todo, um grupo de pessoas da cidade esteve acompanhando todo este processo de licenciamento desse senhor. Pelo menos até onde podíamos acompanhar.

ONGs foram organizadas quase que exclusivamente para defender a área em questão.

Passeatas, protestos, reuniões, cartas, relatórios. O que puderem imaginar foi feito.

Finalmente, há poucos anos, o corte das árvores começou.

Novamente mais mobilização das mesmas pessoas que não desistiam nunca em defender a região. Sempre de forma legal (no sentido jurídico) e com sacrifício do próprio tempo e dinheiro.

Para dar um exemplo, eu pessoalmente levei no meu jipe os fiscais da Polícia Ambiental até a área da Alemoa para que embargassem o corte, juntamente com outros amigos. O embargo durou uns bons meses.

Em outra ocasião, participei de uma reunião com o novo responsável pela nova licença de corte para determinar as condições do corte e estipular critérios. Tive que me deslocar com outras pessoas para outra cidade para tal reunião.

Nessa reunião uma de minhas colaborações foi determinar que o corte seria restrito apenas a bolsões de árvores de acesso fácil, onde os caminhões não teriam que passar por cima de cursos de água. Isso restringiria a área de corte bastante e protegeria os rios da região.

Foi feito o documento com todas as condições e o dono da área deveria obedecer. E o poder público deveria fiscalizar, visto que o acesso a área privada é proibido e ninguém tem permissão de entrar lá.

Na época, também sugeri que o controle fosse feito por satélite. Que se usasse a tecnologia para fiscalização. Afinal, estávamos na cidade do INPE.

Confesso que encerrei minha participação no assunto “Terras da Alemoa” na feitura desse documento depois de anos envolvida no assunto.

Não havia mais nada que eu pudesse fazer.

Envelheci.

Hoje, a Andréia, minha empregada me pergunta se um político da cidade me telefonou me convidando para uma manifestação na praça.

- Que manifestação?

- Estamos sem água há dois dias.

- Por que? (Lembrem-se que eu tive que gastar uma fortuna abrindo um poço aqui em casa porque se recusaram a me fornecer água e hoje sou completamente independente em termos de água.)

- Estão cortando lá em cima e desbarrancou tudo. Entrou terra nos canos e entupiu toda a caixa d’água. Acabaram com o Rio das Couves. É só terra. E agora vem a Vanguarda (TV local da Globo) fazer uma reportagem na praça. Vai todo mundo. O F. falou que ia chamar você porque você sempre foi metida nessas coisas de ecologia e tem um jornal, para você participar.

- Ai, Andréia, desculpa mas eu não vou. Pode ir você. Sai mais cedo. E amanhã me conta como foi que eu coloco no jornal.

It’s too late.

Been there, done that.

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    Liliana | Admirável Mundo Velho,Payton Place | Friday, August 29th, 2008

    Quando a gente nasce, já nasce numa família. Pelo menos a maioria, espero. Porque tem aqueles que são paridos e jogados no lixo, infelizmente.

    Bem, voltando ao assunto, a gente nasce numa família e teoricamente isso significa que já nascemos com gente que gosta da gente e quer nosso bem.

    Teoricamente.

    Crianças, vou contar uma coisa muito triste e real. Desculpe se sou eu que vou dar essa notícia mas…

    Não necessariamente a família faz coisas legais com a gente. Eles podem até não querer o nosso bem. E podem até fazer coisas para nos ferrar!

    Incrível, não é?

    Ilógico também.

    Mas verdade.

    Principalmente se tem dinheiro envolvido. Daí é uma doideira. Tudo pode acontecer.

    Família, você ainda vai ter uma.

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    Liliana | Payton Place,São Francisco Xavier | Tuesday, June 24th, 2008

    Eu não me canso de dizer que São Francisco Xavier é o umbigo do mundo, que todo mundo se encontra aqui e tudo aqui acontece. Quem conhece este lugar pode comprovar e ver que não estou mentindo.

    Vou contar agora a última que fiquei sabendo por fonte garantida que soube direto dos “políça”.

    Nosso caixa eletrônico, que por acaso está soando seu alarme neste exato momento que escrevo, foi roubado.

    Ele fica numa pequena entrada na parte da frente do banco que está na praça principal da cidade. Pertinho da casinha da Guarda Municipal.

    Ficou famosa a história quando seu alarme tocou a primeira vez.

    Em vez dos guardas municipais correrem para o banco, fugiram na direção contrária. E quem foi avaliar o que estava se passando foram os pacatos cidadãos que passeavam pela pracinha, incluída esta que vos escreve. Desde então, o alarme toca e ninguém liga.

    Porém, noite dessas, o caixa eletrônico foi de fato roubado.

    O esperto ladrão, como num filme, cobriu as câmeras de segurança e perfurou um buraco na lateral do caixa durante a madrugada.

    Na manhã seguinte, havia desaparecido a quantia de 28 mil reais.

    A dúvida ficou como o ladrão havia conseguido retirar o dinheiro pelo buraquinho.

    E pensa daqui e pensa dalí. E todos os peões da cidade não entendiam a mágica do dinheiro passar no buraquinho.

    A mágica que poucos entenderam e que o PM tentava explicar, era que o ladrão pelo buraquinho puxou a fiação do caixa eletrônico, conectou um laptop e fez o caixa soltar o dinheiro pelo local onde se faz a retirada do mesmo.

    De mau elemento o ladrão virou herói.

    Foi muito elogiado e desejaram que ele nunca seja preso.

    Que beleza de roubo!

    E essa é São Francisco Xavier.

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    Liliana | Payton Place,São Francisco Xavier,Tecnologia para viver | Thursday, January 17th, 2008

    O mercado aqui de São Francisco Xavier é carinhosamente chamado de Máriomercadinho porque é do Mário, óbvio.

    Estava eu querendo pagar com o cartão de débito (olha que avanço tecnológico!) quando eu soube que a única linha de telefone estava ocupada com o recém-inaugurado terminal da Nossa Caixa.

    E espera, espera e espera…

    Até que eu, num momento Liliana de ser, solto um: “Mas que pobreza heim, Mário! Uma linha só de telefone?!”

    No segundo seguinte, cai uma chuva de notas de dinheiro do escritório da sobreloja por cima de nós.

    O Mário estava usando um barbantinho com um clip para baixar um bolo de notas para os caixas quando o clip se soltou espalhando as notas (outra coisa de tecnologia muito avançada, diga-se de passagem).

    Eu não me aguentei:

    “Pô, Mário! Foi só chamar de pobre que começou a chover dinheiro?”

    Isso aconteceu ontem.

    E depois não sei porque me olharam de jeito esquisito quando voltei lá hoje.

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    A maioria sabe que eu não tenho internet banda larga porque moro numa cidadezinha pequenininha na Serra da Mantiqueira. Mas isso está para mudar.

    O “pogresso” já chegou aqui. Ou melhor, quase.

    Há tempos atrás eu recebi um telefonema de um cara dono de uma firma que coloca antenas de satélite para televisão me oferecendo internet por rádio. Ele me oferecia a incrível velocidade de 128 kbps por meros 130 reais ao mês e dizia para eu ir ver como era lá na imobiliária de um fulano que já tinha.

    Eu falei para ele que essa velocidade não me interessava e por isso preferia continuar com minha conexão discada e a Internet Ilimitada da Telefonica que saía mais barato. E que se ele me desse um orçamento de outras velocidades eu poderia pensar no assunto. Nunca mais tive resposta.

    Tempos depois recebo um email de outra firma me oferecendo também internet por rádio. Telefonei para o representante da firma aqui na minha cidade e ele rapidamente veio me fazer uma visita para constatar que eu tinha visada da torre de transmissão e me inteirar dos preços. Ele me ofereceu 256 kbps por 130 reais. Como ainda tinha algumas dúvidas, telefonei para o escritório da firma em São josé dos Campos para falar com o engenheiro responsável, não sem antes fazer uma pesquisa na internet sobre a mesma firma. Descobri que a tal empresa estava no ramo de internet há 10 anos, era muito bem conceituada, tinha vários clientes de peso, muita experiência e uma boa infra-estrutura.

    Mesmo assim, falei com o engenheiro, tirei todas as dúvidas, fiquei sabendo de todos os detalhes que eu queria saber sobre a internet via rádio e a cobertura aqui em São Francisco, sobre acidentes, transmissão, mínimo garantido, etc., etc.. Tudo muito profissional.

    Neste meio tempo, a primeira firma estava em silêncio. Porém, quando fui ao correio, um funcionário de lá que também trabalha para esta empresa me perguntou se eu já estava com banda larga (alerta de fofoca). Eu disse que não pois o tal fulano disse que ia me ligar e não ligou. Eu falei para ele avisar o outro para me ligar. O cara me liga finalmente e eu peço os preços. Ele me dá dessa vez, 256 por 135 reais. No que eu respondo: seu concorrente é mais barato. E ele: então para você eu faço pelo mesmo preço. E tenta me convencer a fazer o serviço com ele pelo simples fato dele “ser daqui”. E me pergunta se eu concordo que ele vá fazer um teste em minha casa para me mostrar a velocidade da internet. Eu digo que tudo bem, venha fazer o teste, quero ver isso funcionando. Então, ele diz que quando estiver por São Francisco, viria em casa.

    Neste meio tempo, o concorrente dele entrou em contato comigo, veio na minha casa, eu entrei no site deles, conversei com o dono da firma, avaliei o serviço, fiquei satisfeita e os contratei.

    Hoje pela manhã eu recebo dois telefonemas. Um, da firma que eu contratei dizendo que vão instalar a banda larga hoje a tarde ( eu contratei eles ontem). O segundo, logo em seguida, do cara daqui perguntando se podia vir aqui em casa porque ele estava em São Francisco Xavier e estava com todas as coisas com ele.

    Eu falei, como assim?

    É. Estou com tudo no carro.

    Olha, eu contratei seu concorrente.

    O cara em vez de agradecer e desligar o telefone, quis saber o porquê. Ficou dizendo que tinha instalado uma retransmissora só por minha causa. (Então ele primeiro queria me vender a assinatura para depois instalar a antena? É isso?) Ficou dizendo que estava contando comigo. Que era acostumado com o povo da roça que falou, tá falado. Que a gente tinha combinado.

    Eu disse que a gente não tinha combinado nada. Que ele viria fazer um teste aqui e não apareceu.

    Ele ficou insistindo.

    Eu por fim falei que havia contratado a outra empresa por causa do currículo dela. E ele me disse que se era por causa de currículo, eles estavam no mercado há 20 anos, que eles tinham experiência com isso há 15 anos. (Engraçado, internet está aí só há 10 e pouco.)

    E ele insistindo que tinha colocado a antena por minha causa. Imagine!

    Enfim, eu falei que não ia discutir isso com ele. E ele finalmente desligou o telefone.

    Definitivamente o mercado exige profissionalismo.

    Eu exijo profissionalismo. Simples.

    Não é nada pessoal, pelo contrário. É profissional.

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    Liliana | Payton Place,São Francisco Xavier | Monday, April 30th, 2007

    Fomos conhecer o restaurante novo da cidade que fica na Rua 15 de Novembro, o Alegro.

    A casa foi reformada e a decoração está bonita. Mas é só.

    Ao ver o cardápio, só havia um prato que não tinha carne de nenhum tipo. Se tratava de um penne primavera, comida que sinaliza extrema falta de imaginação e falta de visão do chef.

    E “chef” não era bem a palavra correta a ser usada na verdade, pois o ser que estava na cozinha não tinha realmente nenhum talento. Não era nem mesmo cozinheiro.

    Perguntei à garçonete se havia outras comidas sem carne. Ela disse que chamaria o chef para que ele combinasse um prato para mim. Em vez do homem aparecer, começa uma gritaria. O ser começou a berrar para todo o restaurante ouvir entre outras coisas que: “ela” (“ela” era eu) já tinha vindo até aqui mesmo então devia comer o que tinha no cardápio.

    Eu não liguei o nome à pessoa e fiquei aguardando o fulano vir. A moça voltou muito sem jeito. Eu fingi que não era comigo e voltei a perguntar se o chef viria falar comigo para conversarmos sobre algum prato para mim.

    A mocinha voltou à cozinha e novamente ouvimos os berros: então vê se ela gosta de berinjela!!!

    Quando a moça voltou perguntando se eu gostava de berinjela, eu me levantei e disse que preferia ir embora.

    Um bom cozinheiro faz qualquer prato gostoso com qualquer ingrediente. Que não é o caso do homem que trabalha no Alegro de São Francisco Xavier.

    Sempre que eu vou em um bom restaurante, o chef faz pratos sem carne para mim com os mesmos ingredientes que ele faz os pratos do cardápio. Eu nunca pediria uma comida impossível ou que não houvesse no cardápio. Isso tem a ver com uma postura cosmopolita. Eu estou acostumada com gente e lugares mais cosmopolitas e menos tacanhos.

    Uma pessoa inteligente trata bem o cliente em seu estabelecimento e não berra nem dá chiliques. Principalmente alguém com um blog que vai indexá-lo para sempre como um péssimo profissional e marcar o Alegro como um péssimo restaurante para ninguém ir.

    Depois fui me informar melhor sobre o restaurante e vi que não era só eu que saí insatisfeita.

    Uma mulher pediu uma truta e disse que veio um mísero pedaço mal temperado com um acompanhamento pequenininho que ela não conseguiu identificar. Pagou 29,90 e se arrependeu.

    Outro casal não gostou do gosto da comida de lá.

    Bem, vocês estão avisados. Se quiserem comer em São Francisco Xavier, andem mais um pouco, e mais para cima na mesma rua, tem o Bistrô da Serra da Mery que é muito bom.

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    Liliana | Minha vida num sítio,Payton Place | Wednesday, April 25th, 2007

    Já contei os probleminhas que a gente teve para ter água por aqui.

    Então, no fim a gente construiu um poço mas não podia usar porque não tinha energia elétrica para ligar a bomba.

    Daí, pedimos para puxar um gato do vizinho para podermos ir aproveitando o poço enquanto a gente não construia a casa.

    O vizinho disse não. Simplesmente o cara regulou um fiozinho saindo do poste para uma bomba de água.

    A gente só conseguiu instalar energia elétrica no terreno depois de dois anos, quando da construção da casa. Porque a concessionária de energia só punha poste se tivesse alguma construção no terreno.

    O filhodaputa do vizinho depois veio pedir água para mim.

    Daí eu disse NÃO. Assim, com a boca cheia.

    Pois hoje, o mesmo cara, veio me pedir para eu por meu nome num pedido para a SABESP para levarem água encanada para nossa rua. Para que eu também tivesse um relógio de água da SABESP mesmo que eu não fosse usar.

    Adivinha o que eu falei?

    NÃO.

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    Liliana | Minha vida num sítio,Payton Place | Wednesday, April 11th, 2007

    Quando você compra terra a coisa mais importante que você tem que saber é se tem água no seu terreno. E se não tiver, se alguém vai te fornecer a água, de onde ela vem, como é o suprimento para você não ficar sem ela de jeito nenhum.

    O bem mais precioso que existe no mundo é a água. Não é papo de eco-chato não. Estou falando sério. O negócio é água.

    Bem, eu fiquei apaixonada pelo terreno pertinho da cidade, face norte, com uma vista linda da Serra da Mantiqueira. Mas tinha um detalhe: não tinha água. Ele ficava entre duas nascentes, dois valezinhos de onde brotam riozinhos que vão dar em rios maiores. E o terreno, uma encosta de um morro, sequinho, sequinho.

    O cara que estava vendendo me garantiu: “não se preocupe com a água. Tem a nascente aqui do lado que serve todas as casas da rua e também vai fornecer para o seu terreno.” Uma vez que a pessoa cede o uso da água, é para sempre. Está na lei. Então, fiquei tranquila.

    Água da SABESP a gente nunca teria, embora fosse do lado da cidade, porque tinha o rio dividindo a gente do encanamento que fornecia água. Então, nos conformamos que teríamos de fazer um sitema de bombeamento desde a nascente que ficava do outro lado do nosso vizinho, lá embaixo, até o platô de cima.

    Na nascente o negócio era o seguinte: quem chegava por último pegava a água que sobrava. E a gente era o último então nossa caixa d’água ficou por último na fila de caixas d’água pegando o que sobrava do ladrão da penúltima caixa. Dessa caixa saía um cano de borracha preta e grossa com uma bomba “náuger” que jogava a água até o meio do meu terreno, passando enterrado pelo meio do terreno do meu vizinho até outra caixa d’água. Que ficou conhecida como a caixa d’água da Curva da Caixa D’Água na minha estrada. Lá, outra bomba bombeava para outra caixa d’água no platô de cima, que dessa vez, distribuia para o terreno, mandando outra borracha lá para baixo e para uma torneirinha perto.

    Tudo isso nos custou uma grana razoável que a gente penosamente pagou para levar água para o terreno. Mas ficamos contentes, porque finalmente tínhamos água e “para sempre”.

    E cada coisa que a gente fazia no terreno parecia uma poupança. Enquanto vinha “gente de São Paulo” e construía suas casas com aparente facilidade e rapidez, nós continuávamos morando na casinha pequenina alugada e esperávamos meses até ter o dinheiro para fazer outra melhoria no sítio.

    Nesta época já tínhamos contratado nosso camarada, o cara que fica trabalhando no terreno. Chamava, é claro, Seu Zé. Esse era o Zé da Serra. Porque agora trabalha comigo outro Seu Zé, o Laureano, muito melhor. E Seu Zé vivia reclamando que sempre faltava água. E ele não podia fazer nada, porque não tinha água.

    E meu marido vinha apenas nos fins de semana. E o queridinho tinha que se enfiar na nascente e ficar mexendo na bomba para ver se tinha algo errado. Mas ele entendia tanto de bomba náuger quanto Seu Zé de neurocirurgia. Então, ficava trocando de bombas. Punha a de baixo, em cima; a de cima, embaixo. Levava para o concerto. Trazia de volta na semana seguinte. Chamava o eletricista que punha a culpa na oscilação de voltagem da instalação elétrica das bombas. E isso durou meses.

    Nove meses para ser exata. Nove meses sem água.

    Seu Zé, o primeiro peão workahoolic que eu vi na vida, ficou se queixando os 9 meses sem parar que não tinha água e que não podia fazer nada. A gente não tinha dinheiro para fazer nenhuma outra melhoria no terreno. Ele dizia na cara dura que a gente era pobre. Que a gente tinha que arrumar dinheiro. Que precisava construir logo. Que precisava colocar canaletas na estrada (essa é outra boa história, as canaletas). Que ele não podia fazer hortinha. O homem era terrível. Eu fugia do Seu Zé e nem aparecia no terreno para não ser chamada de mesquinha nem que estava escondendo o ouro.

    Tempos difíceis aqueles.

    Uma secura total.

    “Eu não posso plantá planta!”

    Horrível.

    Ele ia em casa reclamar.

    Numa das idas na nascente, meu marido descobriu um fato estarrecedor: além de ter um lagarto enorme que ficava olhando para ele sem parar, a nossa caixa d’água estava furada. Alguém fez um furo bem embaixo na caixa, provavelmente com uma chave de fenda.

    Tchãrãã…

    O furo foi consertado mas nossa visão dos acontecimentos começou a mudar.

    E começamos a olhar em volta. E ainda estávamos sem água.

    Foi quando percebemos que havia muitas casas e pouca nascente. A gente bem que deu umas mudas de árvores para o dono da nascente reflorestar em volta para segurar mais água, mas ele não quis. O filho dele abriu uma pousada na rua, o que significava mais gente usando a água da exígua nascente. Um desentendimento com outros vizinhos foi uma boa desculpa para o corte de fornecimento para umas 3 casas do fim da rua. (Esse pessoal , numa ação terrorista e desesperada, acabou invadindo o terreno da outra nascente e roubou a água de lá.) Ahnnn…

    Sabotagem. Pura e simples sabotagem.

    Logo em seguida Seu Zé entrou furtivamente no terreno do vizinho e foi acompanhando nosso cano de borracha enterrado e descobriu que ele havia sido desenterrado e cortado. E quando nossa bomba funcionava, bombeava água para fora, para a grama do vizinho. Nós nunca tivemos problemas com as bombas.

    Como diz a mocinha do anúncio de carro: tudo bem.

    Vamos ficar sem água. Agora quem não quer esta água sou eu. Eu sou chata, chata.

    A porra da nascente está secando porque não cuidaram. Colocaram gado lá para pisotear em cima. Tiraram toda a vegetação em volta. O clima está mudando e os períodos de seca pioraram. E queriam a pouca água que restava só para eles.

    Então tá.

    A solução do Sítio Paineira Velha: eu juntei dinheiro por um bom tempo e mandei fazer um poço daqueles de oitenta metros de profundidade. A água que sai dele vem direto da rocha escavada. Água mineral pura e límpida. Maravilhosa. A vazão dá para abastecer quase que a cidade inteira (mas eu uso só um pouquinho e economizo porque água é um bem precioso e só porque eu tenho não vou gastar à toa).

    Demorou mas eles vieram me pedir água.

    E eu claro, disse… NÃO.

    PS- da construção do poço até poder usá-lo efetivamente demorou 2 anos porque não tínhamos energia elétrica para usar a bomba do poço. Essa é outra história….

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    Pois deu no que deu. Eu acabei falando sobre um assunto que eu não queria falar aqui. Eu e minha boca grande. Falei e pronto.

    Acabei de postar sobre vegetarianismo, recebo um telefonema de uma moça me convidando para almoçar. Foi mais ou menos assim: oi Liliana, eu li seu blog…. estou aqui em São Francisco… eu vi que você é vegetariana… tem um resturante que tem comida vegetariana aqui…

    Eu já tinha encontrado a moça uma vez, nunca tinha ido ao restaurante e achei a idéia interessante. Fui.

    Chegando lá. Pergunto para a dona: o que tem de vegetariano? Resposta: nada.

    Tudo bem, pensei eu. Fico na minha. “Tem prato feito?” “Tem”. “Então quero arroz, feijão, purê e ovo frito.” Para beber eu sempre peço Coca light. Minha acompanhante pediu o PF com bife, torradas, suco de limão e depois ainda sobremesa.

    Veio uma salada para nós duas e nossos pratos separados em travessinhas minúsculas.

    O purê demorou e juro, veio 4 colheradinhas ridículas.

    Na hora da conta, fomos no balcão e minha conhecida perguntou quanto era.

    13 reais.

    Ela pagou.

    E daí eu perguntei: e eu?

    14 reais.

    Como?

    14 reais.

    Por que?

    Teve o ovo e o purê.

    Como assim? Não entendi, me explica.

    (A mocinha chama então a dona do restaurante.)

    É 14 reais sim. Estou cobrando o ovo e o purê.

    Como assim? O ovo está no lugar do bife. Não vou pagar. Então quanto fica? Me explica isso.

    O purê você pediu.

    Pedi.

    O purê é a parte.

    Se eu pedi o purê e o purê é a parte, eu pago.

    Mas tem as torradas.

    Eu não pedi as torradas, foi ela. Por que minha conta é 14 reais? Me explica. Quanto é a Coca?

    2 reais.

    Quanto é o prato?

    6 reais.

    Quanto é o purê?

    2 reais.

    E por que você está me cobrando 14 reais?

    (A dona do restaurante visivelmente tentando achar uma razão para os 14 reais… De repente ela acha…)

    A salada! A salada vegetariana. Eu mandei uma salada especial porque você é vegetariana.

    Eu não falei que eu era vegetariana. E não pedi salada nenhuma. Pedi? (Perguntando para minha acompanhante.) Pedi? (Dessa vez olhando para a garçonete.) Não pedi.

    Mas eu sempre mando uma salada especial para os vegetarianos, porque a salada simples só vem com alface, tomate e uma couvezinha. E essa foi com manga, legumes e um monte de coisas.

    Eu nunca vim aqui, como eu vou saber a diferença da salada simples e da especial. Eu não pedi salada especial. Vamos lá: o prato custa 6, o purê custa 2, são 8, a Coca é 2, são 10. Então…

    ….

    Como é? O que vai ser? Estou esperando meu troco.

    Então vou cobrar só 10 mesmo e vou ficar no prejuizo da salada.

    Que eu não pedi.

    (Virei as costas e fui embora para nunca mais voltar.)

    Ser vegetariano implica sofrer um preconceito que equivale a ter a cor roxa. É como se eu fosse pintada de roxo, inteira. As pessoas querem te arrancar mais dinheiro, acham que você é mais rica, que você está disposta a pagar mais só pelo fato de ser vegetariana. Tudo é mais caro para os vegetarianos, somos visados inclusive politicamente pois há essa conotação errônea que temos idéias políticas estapafúrdias apenas pelo fato de sermos vegetarianos. Somos seres exóticos que os outros querem exibir por aí e ficam falando para qualquer um, sem nos perguntar e nos expõe: “ela é vegetariana”, como aconteceu no restaurante.

    Se eu não tivesse feito o post sobre ser vegetariana neste blog, nada disso teria acontecido.

    E caralhopintobunda, como diria meu querido amigo Pinga, a gente não come só salada, porra! Eu só como salada quando o tempo está estupidamente quente (que não era o caso hoje). E eu detesto berinjela! Bosta!

    Nota- O restaurante onde aconteceu este episódio se chama Trutas Mariser e fica na Praça Cônego Antonio Manzi em São Francisco Xavier, SP.

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    Liliana | Celulares,Minha vida num sítio,Payton Place | Saturday, February 17th, 2007

    Atualmente tenho dois problemas com a VIVO.

    O primeiro é na minha linha que faz a conexão com o ZAP. Não conecta. O pessoal da área técnica entrou em contato comigo hoje. Acordaram-me em plena madrugada de sábado e não resolveram nada. Depois que eu os convenci que estava tudo bem com meu Bluetooth, disseram que iam investigar melhor e entrariam em contato de novo.

    O segundo é com a ERB de São Francisco Xavier. Não está transmitindo dados, ou seja, nem torpedos SMS, nem Foto-Torpedos, que dirá WAP e ZAP (quando consertarem o outro defeito). É uma antena antiga, que veio de outra cidade, Santa Branca, porque ficou ultrapassada e mandaram para cá. É digital, mas nem é 1X. E além de ser velha, é a única que temos. E como moramos num local montanhoso, imaginem as sombras de recepção. Já pedimos várias vezes para que trocassem essa ERB. Hoje falei com a Central de Atendimento e eles confirmaram o problema dela e disseram que a data de normalização seria por volta de 28 de fevereiro. HAHA! Escrevi outro email para a VIVO pedindo encarecidamente para fazerem a mudança. Meus outros emails foram ignorados e não descobri como entrar em contato com a ouvidoria deles.

    Como já disse antes, não há outra operadora de celular aqui em São Francisco Xavier.

    Em compensação a transmissão de voz está bem. Cumpre sua função direitinho. É o mínimo. E eles iniciaram promoções de minutos extras para planos pós e prés. Vale a pena se cadastrar no *9000. Eu já me cadastrei e uso cada vez menos o telefone fixo. O dia em que arrumarem esta ERB aqui e colocarem mais, vou pensar seriamente em desativar meus fixos.

    Enfim, escrevi tudo isso porque minha cobertura fotográfica do carnaval sãochiquense não vai sair. Eu vou desfilar tradicionalmente no nosso Bloco Vai Vomita e Volta no domingo e na terça e iria postar diretamente da rua (porque só tem uma…) animada (tá bom, tem 4 ruas na cidade, exagerei). Vocês vão ter que me imaginar indo atrás do carro de som: um chevette velho com o porta-malas aberto e sendo empurrado porque o motor não pega.

    Bom carnaval a todos!

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    Liliana | Payton Place | Monday, January 15th, 2007

    “Então vocês foram para São Paulo… E o buraco? Eu estou com muito medo de ir para lá. Aquela cidade é cheia de buracos pra todo lado e estou com medo de cair num buraco. Não sei como vocês têm coragem.”

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