Meu atendimento mudou com o iPhone

Eu adoro o que faço.

Todo dia recebo pacientes com as mais diferentes queixas que englobam diversas especialidades. Eu sou a clínica geral da pequena cidade que moro e o acesso a especialistas é muito difícil. Assim, eu procuro resolver os problemas que aparecem por aqui mesmo, enquanto o paciente aguarda a consulta com o especialista que pode nem acontecer.

É impossível saber toda a Medicina de cor. E é aí que entra o iPhone.

Baixei aplicativos médicos que recorro mesmo na consulta para ter sempre a possibilidade de oferecer o que há de mais moderno e completo mesmo numa pequena vila da Serra da Mantiqueira.

Meu preferido é o Medscape.com. Eu tenho estudado por esse site e me atualizado há vários anos e fiquei muito contente de achar a maior parte da literatura para download.  Assim, nem preciso conexão de celular ou WIFI para ler os textos.

Outro aplicativo é o MedCalc. Uso para calcular coisas como o IMC.

O CID-10 também está disponível assim como uma lista de Genéricos.BR.

Minhas últimas aquisições são um Guia de ECG com dezenas de exemplos de traçados que está quebrando um galhão porque um laudo de ECG pelo cardio demora até 6 meses para chegar. (ECG Guide)

E também um Manual de Dermatologia cheio de fotos (A2Z-Derm).

Também tenho o Epocrates mas confesso que nunca precisei usar. Tirei.

Sem dúvida o iPhone tornou meu trabalho muito mais completo, de melhor qualidade, divertido e desafiador. Não tem volta.

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    Gigio é um pastor alemão mestiço de aproximadamente 12 anos de idade.

    Ele começou a ter vômitos e prostração de uma hora para outra sem outras alterações.

    Rapidamente evoluiu para dificuldade de se levantar, permanecendo deitado o tempo todo.

    Aceitou água e soro caseiro por via oral mas não quis comer.

    Em menos de 8 horas de evolução do quadro inicial de vômitos, apresentou instabilidade ao ficar de pé, caindo para o lado esquerdo e andava em círculos para o lado esquerdo também.

    Foi levado à clínica veterinária com suspeita de afecção neurológica de cerebelo com diferencial de labirintite.

    Rapidamente também desenvolveu nistagmo batendo para a esquerda.

    O veterinário fez hipótese diagnostica de Acidente Vascular Cerebral.

    Eu não concordei por causa da localização de labirinto à Esquerda e pela evolução de horas, o que sugere infecção e não quadro vascular.

    Ao exame, além do nistagmo e instabilidade, apresentava vermelhidão e edema de conduto auditivo externo esquerdo.

    Foi medicado com dexametasona, furosemide, flunarizina e uma cefalosporina de quarta geração.

    Em menos de 12 horas o nistagmo e os vômitos cessaram.

    Voltou a comer no terceiro dia e deambulava com ajuda.

    Teve alta para casa no quarto dia e aqui está se alimentando bem, bebendo água e tentando manter sua rotina de me seguir pela casa e ir até o jardim urinar. Teve uma vez diarréia e ainda não evacuou normalmente.

    Observamos que a marcha melhorou muito embora ainda tenha tendência de cair para a esquerda.

    Os exames laboratoriais mostraram um neutrofilia relativa indicando infecção aguda, o que fecha o diagnóstico de otite interna.

    Ainda não sabemos o grau de sequelas que ele terá visto o quadro ainda ser muito recente. Mas a melhora está sendo progressiva e constante.

    Agora quero tecer alguns comentários a respeito do atendimento do Gigio pelos veterinários.

    Ao verem o cachorro instável se fecharam no diagnóstico genérico de “Problema Neurológico”.

    Quem fez o diagnóstico de Otite Interna e instituiu a antibioticoterapia fui eu. A veterinária nunca tinha ouvido falar nisso.

    Otite Interna é uma doença relativamente comum em cães que apresentam Otites Externas de repetição (o caso do Gigio).

    A veterinária não examinou o cachorro. Eu que o examinei enquanto ele estava deitado na sala de exame e constatei a Otite Externa, que sugere o diagnóstico de Otite Interna por continuidade.

    Pessoalmente eu também nunca tinha ouvido falar em Otite Interna em cachorros, mas a clínica é soberana e o quadro neurológico dele indicava comprometimento labiríntico do lado esquerdo.

    Como neurologista, eu nunca tinha visto uma labirintite infecciosa bacteriana em gente nesse grau. Mas cheguei a esse diagnóstico no Gigio apenas considerando sintomas e exame físico. Mais tarde pesquisei em textos médicos veterinários e vi que era uma patologia bem descrita. Raro em gente e comum em cachorro.

    Fico pensando na quantidade de cães que não foram diagnosticados com essa infecção e tratados ou sacrificados por causa de “derrame”.

    Espero que esse relato sirva para alguma coisa.

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    Liliana | No Plantão | Friday, October 30th, 2009

    Com essa coisa nova de Listas do twitter, a graça é ver os nomes das listas das pessoas.

    Fui colocada numa lista chamada Brinks.

    Eu não sei o que significa isso agora. Se é bom ou se é mau. Mas há muito tampo atrás, Brinks era uma gíria usada pela minha equipe de neurocirurgia.

    Foi nos idos de 1990, quando houve um duplo atropelamento por um caminhão da Brinks.

    Os dois caras chegaram ao PS da Santa Casa de SP completamente detonados pelo caminhão com traumatismo cranioencefálico grave.

    Eu era a R4 responsável e tinha que triar os pacientes porque havia apenas uma equipe para duas pessoas. Imediatamente um paciente virou Brinks 1 e o outro Brinks 2.

    Operamos o Brinks 1 que se recuperou mais rapidamente porque a situação era mais favorável.

    Brinks 2 não era cirúrgico. Foi colocado num Takaoka (um pequeno respirador) no PS e medicado para posterior avaliação. Surpreendentemente, Brinks 2 sobreviveu e foi transferido para nossos cuidados de enfermaria onde permaneceu por muitos meses em coma vigil.

    Novamente a surpresa, Brinks 2 acordou do coma.

    Lembro exatamente do leito onde ele ficava no DC-1.

    O tempo todo ele foi chamado de Brinks, perdeu o 2 porque o 1 tinha recebido alta há muito tempo.

    Mas só quando acordou do coma e começou a falar é que começamos a chamá-lo pelo nome, o que eu esqueci nessa altura do campeonato.

    Mas sempre que eu vejo, ouço, leio a palavra Brinks me vem à mente aquele homem atropelado que sobreviveu por muita sorte.

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    Liliana | No Plantão | Friday, June 12th, 2009

    Quando eu era criança na cidade grande costumava me fantasiar de caipirinha para as festas juninas. Além do vestido de chita florido e o chapéu de palha, para ser uma caipirinha de verdade no frio da noite da festa precisava usar várias roupas uma por cima da outra.

    Já adulta trabalhando aqui no mato e virado eu mesma uma caipira de fato, constatei que o mais verdadeiro da fantasia eram os agasalhos empilhados como cebola.

    No mato, no frio, você usa a roupa que tiver, do jeito que for e faz qualquer negócio para não passar frio. Por isso a descombinação geral que eu vejo direto por aqui.

    Resolvi escrever este texto porque hoje estou completamente caipira. Em pleno plantão, morrendo de frio, fui obrigada a vestir todas as roupas que eu tinha trazido para cá. Desde o moleton que uso de pijama até o capotão de lã. Quatro camadas de agasalhos, todos cada um de uma cor. Ficou lindo! ;)

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    Liliana | Bichos Incríveis,Minha vida num sítio,No Plantão | Wednesday, May 6th, 2009

    Ainda estou na merda. Mesmo com as bactérias novas que jogamos nas fossas o problema do esgoto continuou. Então resolvemos fazer novas fossas para acrescentar às originais. As famigeradas fossas negras. São buracos enormes e fundos cavados na terra, no caso aqui, no jardim, e o cano do esgoto vai desviar para elas, além dos drenos no gramado que já ficou patente que não estão dando conta de dispersar a água.

    As tais bactérias são incríveis. Muito boas mesmo, porém, o solo está tão encharcado que a água que sobra das fossas sépticas continua voltando pelo ralo da garagem. Seu Zé está cavando a primeira fossa e quinta-feira deve ligá-la ao sistema. Até semana que vem esperamos ter resolvido definitivamente este problema.

    Eu gosto de saber que meus cachorros têm vida própria. Já contei que cada um tem sua rotina, gostos pessoais, personalidade. Esta semana fiquei sabendo que a Joom-La todo dia vai pela manhã até o abacateiro comer abacates do chão. Meu terrenos tem 15 mil metros mas os cachorros sempre estiveram restritos a área perto da casa. Agora mais velhos eles já não fogem. Na verdade não querem fugir daqui e podem aproveitar o terreno todo. Seu Zé contou que o Gigio gosta de ir almoçar com ele, onde ele estiver trabalhando no terreno. O Tai está com muita dificuldade para andar e passeia apenas pelo gramado aqui perto. Mas sempre dá a voltinha dele duas vezes por dia, religiosamente. A Graça é a única que não se afasta da casa. No máximo vai até a primeira curva da estrada dar uma cheiradinha no mato.

    A dificuldade de locomoção do Tai está muito avançada. Ele consegue andar pela manhã no entanto à tarde, ele já não tem força nas perninhas de trás para se levantar e chora pedindo ajuda. E ele e eu agora temos um ritual: eu pego um cobertor e abro ao lado dele; ele rola para cima do cobertor e fica deitadinho como uma esfinge; então eu puxo o cobertor até o gramado onde ele tem mais aderência para se firmar e ficar de pé. Ele já se conformou com essa ajuda. No começo ele chorava e tentava me morder. Agora ele rola sozinho para o cobertor e abana o rabinho e vai todo feliz enquanto eu puxo. Pois é, tenho um cachorrinho velhinho deficiente.

    Os plantões no posto vão indo bem. O problema é que estou sendo exposta a muitas viroses diferentes e estava desacostumada. O resultado é que peguei uma gripe atrás da outra. E não tem essa de ficar doente. Tem que ir trabalhar. E eu ficava lá ouvindo as pessoas se queixando de tudo que eu estava sentindo. E daí mandava todo mundo descansar, ir para a cama enquanto eu fazia o contrário. O resto do tempo que não estava trabalhando eu só queria cama e sossego. Foram quase 15 dias assim. Sem passear, sem sair de casa, só saindo para trabalhar.

    E finalmente a época das chuvas passou em São Francisco Xavier. Os dias têm sido azuis e maravilhosos e frios. As montanhas estão lindíssimas. Isso me deixa muito feliz porque adoro dias bonitos. Meu humor varia em relação à claridade do dia. E está tudo claro, limpo, agradável. É absolutamente incrível acordar cedo e ver as montanhas branquinhas de névoa e as plantas verdes e viçosas.

    Bem, acho que era isso. Espero que todos estejam bem também.

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    Liliana | Filosofando,No Plantão | Monday, April 20th, 2009

    Que felicidade ao me pesar hoje de manhã e ver que estou com 62,9.  Abaixei dos 63 quilos!

    Estou feliz!

    Pode parecer bobagem, mas para mim é muito importante.

    Significa que estou no caminho certo. Que meu corpo está em equilíbrio com minhas novas atividades e medicações. Que minha alimentação está satisfatória.

    Já estou entrando em várias das minhas roupas e não preciso usar moletons o tempo todo. Uma notícia maravilhosa!

    Já escrevi aqui que o processo de emagrecimento é lento, contínuo e reflete o bem estar interno da pessoa, sendo um excelente parâmetro de qualidade de vida. Se você está no peso ideal ou se aproximando dele, então sua vida está indo bem. Qualquer oscilação de peso significa um desarranjo interno que precisa ser corrigido, seja ele psicológico ou orgânico.

    Aparentemente estou mais adaptada aos plantões. Embora não consiga dormir mais que duas horas por noite, meu peso não está mais subindo no pós-plantão. Eu saio do plantão às 7 da manhã de sábado e durmo boa parte do dia. Só viro gente de novo domingo a tarde e olha lá… Os plantões têm sido muito puxados. Não tenho tido tempo nem de sair para fazer as refeições e tenho comido por lá mesmo com marmita.

    Me perguntaram se tem casos sérios mesmo ou se é só besteira que aparece. Ambos. Tem muita besteira que nem precisava passar no médico mas tem vários casos que se não tratados imediatamente colocam a vida da pessoa em risco. E já teve casos de vida ou morte imediata que ao tirar essas pessoas da emergência compensam todas as bobagens que eu tenho que atender.

    Dias desses recebi um telefonema da chefe do posto me contando que um desses pacientes teve alta do hospital e foi no posto me procurar para me agradecer tê-lo salvado. Isso não tem preço.

    Por essas e por outras eles querem que eu continue dando os plantões de sexta-feira.

    Eu concordo. Resta ver se a burocracia da prefeitura permite.

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    Liliana | Minha vida num sítio,No Plantão | Monday, April 13th, 2009

    receber visitas!

    Este feriado recebemos a visita de um casal de amigos do Cardoso lá do Rio e foi muito gostoso. Muita conversa boa, churrasco, risadas… A casa fica animada e os cachorros ficam em festa porque recebem muito carinho e muitos elogios. Eu como mãe fico superorgulhosa de ver meus pimpolhos sendo elogiados.

    Passeamos de jipe, fomos comer fora na Nanda e no Will, foi muito bom.

    O plantão do feriado até que foi tranquilo. Atendi metade dos pacientes de um dia normal. E não teve  nenhuma emergência séria. Consegui estudar, ver um filme, dormi um pouco.

    A UPA onde trabalho (Unidade de Pronto Atendimento) é muito elogiada e percebi que tem turistas que vão lá passear e aproveitar consultas. Isso revolta pois vem gente de outras cidades onde o atendimento não é lá essas coisas em busca de consultas de rotina no plantão de emergência. E soma-se a isso ao fato que o povo já espalhou na cidade que sou eu que estou de plantão e o pessoal quer passar comigo. Então, fica um monte de pacientes crônicos para atender na UPA e no meu consultório particular, que é bom, nada. Porque ninguém quer pagar. Mas eu explico: olha, eu não tenho acesso ao prontuário online do ambulatório, é apenas atendimento de emergência. Não tem como fazer tratamento crônico no plantão. E tenho que me virar como posso e resolver o problema do paciente com o que eu tenho até ele passar no médico de rotina.

    Este plantão eu atendi tanta gente com pressão alta que lá pelas tantas achei que o defeito era comigo: que eu é que estava ouvindo errado a pressão das pessoas.

    O que que custa tomar a medicação? Ela é fornecida gratuitamente no posto. E os efeitos deletérios da pressão alta são terríveis, se eles soubessem, nunca deixariam de tomar o remedinho. Eu explico, falo, mas parece que o povo não tem amor a vida.

    Não adianta ficar passando no médico se a pessoa não faz a sua parte. O maior interessado é o paciente.

    Eu vejo que uma parcela das pessoas não assume a responsabilidade pela própria vida e pelos cuidados sobre si mesmo. Esses ficam indo no médico por qualquer coisa e geralmente estão descompensados esperando que o médico fique dando “broncas” e incentivando a aderência aos tratamentos. Não é função do médico ficar convencendo o paciente que é melhor ele fazer o tratamento. A pessoa é que deve tomar para si a responsabilidade de querer o melhor para si mesmo. O médico apenas fornece dados e o meio para que isso seja possível. E no caso do posto de saúde, até fornecemos a medicação para que não haja despesa nenhuma. Os profissionais de saúde têm um atuação limitada.

    Bem, era isso do fim de semana. Boa semana a todos!

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