
Este é o Tai, o Chow Chow selvagem.
Não se engane com sua fofura intrínseca porque ele é muito voluntarioso. Os chows chows são assim: cabeças duras. Tem gente que diz que chows chows são burrinhos. Ledo engano. O Tai é bem inteligente: ele só faz o que ele quer. E cabe a nós dobrarmos sua vontade e convencê-lo a fazer o que nós queremos. Se ele achar que vale a pena, ele dá um sorrizinho e lentamente, na velocidade dele, ele faz, na hora que ele decidir.
O Tai vai fazer 12 aninhos em março que vem. E é o mais velho aqui de casa.
Ele, não sabemos como nem porque, desenvolveu uma frouxidão ligamentar nas patas traseiras que dificulta muito sua marcha. O chow chow já tem um andar muito engraçado e típico da raça, com as patas esticadas. Mas o Tai, com as patas traseiras bambas, anda com dificuldade e não tem muita estabilidade. Qualquer esbarrão nele e ele cai no chão feito um saco de batatas.
Essa dificuldade para se mexer fez que ele ficasse mais quietinho no seu canto. E os chow chows já são muito na deles, muito parecidos com gatos, e ficar paradinho horas na varanda só contribuiu para ele ficasse mais gordinho e barrigudinho. Idade, sedentarismo… Um Tai gordinho.
Mas a rotina dele é bem gostosa: ele adora dormir na varanda tomando a fresca da noite, vendo a lua. Ele adora a lua. Quando teve o eclipse ele até chorou. E ele também adora dar as voltinhas dele no gramado. Ele sai passeando lentamente, no seu passinho desconjuntado e dá uma volta na grama para seu xixi, seu cocô, para cheirar as novidades, para cheirar os xixis das fêmeas, para ver a vista aqui de cima. Ele costuma dar duas voltinhas por dia. E não gosta de ninguém acompanhando ele nos seus passeios solitários. Quer sossego e silêncio. Daí ele volta para seu posto na varanda de frente para a garagem tomando conta de quem chega, mesmo dormindo e cochilando a maior parte do tempo. No fim da tarde, ele entra em casa e vai até mim para o agrado diário. Coloca-se ao meu lado no sofá e respira barulhentamente avisando que quer ser agradado. Quando eu olho para ele, ele abana o rabinho concordando: isso mesmo, me agrade agora. Depois de ser agradado por mim, ele vai até o Cardoso para mais agrados e se não quer voltar para a varanda, ele se enfia no nosso quarto para dormir mais. No escurinho e no silêncio. Quando vamos dormir e vamos todos para o quarto, ele sai de lá incomodado procurando outro lugar mais tranquilo.
Outro ritual do Tai é o leitinho.
Todas as manhãs quando a Andréia chega, ela serve um pouco de leite na vasilha dele. Ele cobra o leitinho indo encontrá-la no portão e acompanhando-a até a cozinha. E não sai de lá até que ela o sirva.
Quando ela veio me dizer que ele não quis tomar o leitinho, uma sombra de preocupação caiu sobre a casa: o Tai está doente.
Meus planos de passar uma semana sem viajar se acabaram. Pegamos o jipe e nos dirigimos até a clínica veterinária. O diagnóstico eu até imaginava: bicheira.
Acontece que o Tai tem um tumor de pele na bochecha. Câncer de pele. E era preciso um superoperação para extirpar todo o tumor. Então, eu estava controlando o crescimento. Esses tumores costumam ulcerar e foi o caso do Tai: ele ficou com uma úlcera no rosto, pequena. Manejável.
Vocês podem se perguntar: mas como ela deixou ele com um tumor na bochecha? Porque o Tai é muito bravo. Ele morde. E morde de verdade. Bravíssimo se alguém vai fazer algo que ele não quer. Inclusive eu. Mesmo velhinho, mesmo capenga, mesmo gordinho, ele é terrível.
O tal tumor há meses atrás pegou bicheira e os próprios bichinhos da bicheira comeram boa parte do tumor. Foi um tratamento “alternativo” para o câncer. quase desapareceu.
E agora, o tumor ficou com bicheira de novo.
No veterinário pudemos constatar que o tumor foi todo comido pelos bichinhos. Mas a viagem para São José dos Campos o cansou demais. Daí a idade fez diferença.
Ficar chacoalhando na traseira do jipe é para cachorros mais novinhos. Tadinho. Ficou largadão. Teve que ser carregado com maca e no colo. E eu fiquei desesperada porque nunca tinha visto meu valente chow chow nessas condições.
Como chorei… Mãe é mãe…
Quando voltamos, o Cardoso carregou ele para dentro de casa e do jeito que ele colocou no chão, o Tai ficou até o dia seguinte.
Só falando com a Moema eu acabei me acalmando. Ela me contou que a Ponte-Preta, a cachorrinha dela que tem a mesma idade do Tai, quando voltou de uma viagem agora de férias ficou dois dias sem se mexer também. Ela disse que a Ponte-Preta ficou tão dolorida que ela não vai mais levá-la em viagens. E eu cheguei à mesma conclusão: agora o Tai só sai de casa se for estritamente necessário.
Mas vocês não imaginam a dificuldade de fazer curativo nele. Ele morde. Ele nem se mexe. Mas morde, o safado.
E está ganhando comidinha, leitinho e aguinha na boca.
Daí ele abana o rabo.
Mas tenta fazer o curativo…
Morde.
Só mãe mesmo.