Gritos

Liliana | Minha vida num sítio | Saturday, December 19th, 2009

Não foi a primeira vez que aconteceu.

Que eu me lembre essa foi a segunda.

Agora há pouco fui levar o Tai dar uma volta e ele queria porque queria descer pela estrada. Fomos indo com dificuldade. Ambos cansados visivelmente fazendo o que não podíamos.

Chegou num ponto da estrada que eu não aguentava mais. Ele queria continuar e eu queria voltar. A solução que encontrei foi deixá-lo lá no meio, no sol e voltar para casa onde a água do café estava fervendo. Eu precisava desligar o fogo.

Eu caí na estrada. Torci o pé direito.

Acho que meu corpo não aguenta mais e desabou.

A dor foi lancinante.

Eu gritei e gritei deitada no meio da estrada.

A pastora e a gata lado a lado olhavam para mim preocupadas do gramado.

Ninguém.

Eu pensava na água secando na panela. No cachorro largado no meio da estrada no sol forte. Na dor. E que não teria ninguém para me ajudar.

Nem tinha me preocupado de levar o celular porque só ia “até alí”.

Suspirei fundo. Me levantei. Pisei com cuidado e vi que podia andar até o fogão. Fiz o café.

Voltei para o Tai e o coloquei no cobertor para arrastá-lo de volta à casa pelos mais de 100 m. A dor… Ah, a dor!

Deixei o Tai confortável na sala, na sombra, com água e comida e fralda limpa.

E finalmente me sentei aqui no meu posto da cozinha.

Acendi um cigarro atrás do outro.

Fui vendo que além de ter torcido o pé, havia ferimentos na outra perna também, sangrando. Suando em bicas.

Preciso tomar um banho para limpar os ferimentos e tirar a terra e a poeira da estrada mas não consigo. Em vez disso, resolvi escrever aqui para desabafar. Vi um episódio de Nurse Jackie e ainda não sei se gosto da série. Dela eu não gosto.

Larguei a toalha do Tai lá na estrada.

Fico pensando como é que eu vou descansar nesses dias que tirei de folga assim sozinha sem ninguém para me ajudar.

Eu ia para Gostoso, depois eu ia para São Paulo mas estou muito cansada e como vou deixar o Tai sozinho?

O corpo da gente avisa quando é hora de parar. O meu avisou. Foi bem claro agora.

E o que que se faz?

Simplesmente se faz.

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    Liliana | Minha vida num sítio | Monday, November 30th, 2009

    Nem sei por onde começar.

    Eu resolvi tirar uns dias livres no final de dezembro e para isso eu fui trabalhar todas as 3a. e 5as. pela manhã nesse mês de novembro. O resultado foi que eu esperava uma jornada de trabalho decente e no lugar simplesmente tiraram o meu couro. Entupiram de pacientes a minha agenda e eu fiquei extremamente cansada. Minha qualidade de vida ficou uma porcaria.

    Eu apenas me arrastava de casa para o trabalho e vice versa.

    Em casa as coisas não eram mais fáceis. O Tai dá trabalho. Os outros exigem bastante. Pela primeira vez na vida eu desejei não ter mais bichos.

    Não quero mais.

    Agora entendo as pessoas que falam que não vão pegar mais bichos. Empapucei.

    Ao mesmo tempo, nesse mês de novembro eu experimentei com minha medicação para ver se eu emagrecia. Porque o remédio engorda, é fato. E eu não tenho mais roupas para usar e isso me deixa muito triste. Tive que voltar às doses anteriores mas descobri que estava fazendo hipoglicemia, por isso a fome. E pelo menos parei de engordar. Para variar, estou esperançosa que em dezembro eu consiga emagrecer um pouco já que conheço melhor meu problema.

    Além de estar extremamente cansada com o trabalho e os bichos, cansei de São Francisco.

    Por duas vezes uma barreira caiu na minha rua primeiro me prendendo para fora de casa e depois me prendendo dentro de casa por dois dias. Fiquei sem luz, sem telefone e completamente ilhada. Se eu tivesse um treco, ia morrer sozinha aqui em casa porque não tinha acesso de ninguém, nem a pé.

    Resolvi que assim que tiver dinheiro quero construir em Gostoso e me livrar das chuvas para sempre. Não sei quando isso vai acontecer mas farei o possível.

    Meu Macbook queimou numa das tempestades. O bom é que eu tinha um outro computador de reserva que é o que estou usando agora como principal. O técnico disse que era a placa lógica e que não valia a pena consertar. Era melhor comprar outro. Como o Mac queimado funcionava tudo menos o teclado e o HD, troquei o HD e comprei um teclado e mouse externos e dá para usar como se fosse um desktop.

    Bem, basicamente é isso.

    Fico feliz que novembro esteja acabando pois acredito que dezembro vai ser bem melhor.

    O importante é que aprendi muito sobre mim, sobre os outros, e espero não repetir os erros desse mês. E espero ter tranquilidade para enfrentar as coisas que não dependem de mim.

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    Liliana | A UPA, Bichos Incríveis, Minha vida num sítio | Saturday, November 21st, 2009

    Mais uma semana se passou e eu aqui firme e forte.

    O Tai vai bem. Ele acostumou a andar pelo gramado pelo menos duas vezes por dia com a toalha segurando a traseira e parece estar bem satisfeito. Porém quase toda noite tem que dormir com sedativo para não me acordar de madrugada.

    O Pepê ainda morde tudo e todos. Ele só sabe se relacionar pela boca e percebo que já está se refreando um pouco de me abocanhar para chamar a atenção e interagir. Ele sobe na minha cama enquanto estou dormindo, escondido e deita-se em cima de mim, como um gatinho de mais de 20 quilos.

    A Graça vai bem, mas o tumor na traseira cresceu. Tenho que providenciar a cirurgia mês que vem quando eu tirar uns dias de férias.

    Joom La é minha companheira noturna de cuidar do Tai. Ela agora é quem me segue pela casa enquanto os outros dormem.

    O Gigio está ótimo. Brinca com os mais novos e não me chateia.

    O Mario some e aparece à vontade. Quando a gente acha que ele foi embora, ele está no meio da sala e eu quase piso nele.

    Mais dois sapos apareceram na varanda. Sapos genéricos, feios. Um entrou em casa e eu mandei embora com a vassoura. De sapo, só o Mario que eu acho bonitinho.

    O trabalho para variar está puxado. Minha agenda fica cheia todos os dias. Ninguém falta. Não tenho tempo de nada.

    Resolvi aceitar o cargo de diretoria técnica da Unidade e agora estou esperando ser empossada.

    Esta semana meu Macbook queimou numa tempestade. Deixei baixando séries e fui trabalhar. Quando voltei o teclado e o som não funcionavam. Falei com o técnico da assistência técnica da Apple e ele disse que provavelmente era placa lógica, que significava praticamente perda total do computador.

    Ao mesmo tempo, o HD de 500 que eu tinha comprado para ele chegou. Instalei o HD no meu notebook reserva e configurei tudo e o estou usando agora.

    Ainda não sei o que vou fazer com o que queimou. Já instalei um teclado externo USB e o teclado funcionou, porém, o trackpad deu defeito. Assim, acho que vou comprar um mouse USB e experimentar.

    Por várias razões esta semana eu fiquei pensando na Medicina como A Arte de Curar.

    Hanneman, o criador da Homeopatia dizia isso: é a arte de curar.

    Ser médico envolve o conhecimento técnico e um “quê” a mais para fazer a sintonia fina entre o paciente e seu tratamento. Cada caso é um caso. Cada paciente é um indivíduo diferente e único, uma singularidade. E para poder absorver essa totalidade do paciente devemos olhar “de fora da caixa”. O que serve para um, pode não servir para o outro. Tratamento individualizado é a arte de curar.

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    Liliana | A UPA, Bichos Incríveis, Minha vida num sítio | Monday, November 16th, 2009

    Alguém do Twitter disse que o Tai era o House e eu estou acreditando nisso.

    O pequeno cachorrinho peludo me escravizou. Mais um final de semana em casa só às voltas com ele, fazendo todas as vontades. E como ele chora! E pede.

    Uma hora quer passear de toalha, outra hora quer correr atrás da gata(!) sendo que eu que tenho que carregá-lo. Ele mexe as patinhas da frente com rapidez e eu vou acompanhando recurvada carregando a parte de trás do corpo dele numa toalhinha de rosto. Ontem ele passeou pelo gramado quase todo, foi até atrás da garagem. Passeou 3 vezes! Eu fico exausta e nem descanso da semana puxada porque ele não dá um minuto de sossego.

    E se eu tento colocá-lo em algum lugar que ele não quer, mudá-lo de posição contra a vontade, ele morde. Tomei uma mordida na mão esquerda porque ele queria ficar na varanda. Nessas horas eu largo tudo, respiro fundo e vou para meu quarto fugir de bichos por pelo menos uma hora. Mas não passa 20 minutos ele começa a chorar de novo me chamando. “Cadê você, mamãe?”

    Eu praticamente não tenho mais vida. Só cachorros, só o Tai. É do trabalho para casa correndo para cuidar do pequeno tirano.

    O Tai não faz essa manha toda com a Graça assistente. Agora por exemplo, que é hora dela cuidar dele e eu poder ficar livre por umas horinhas, ele dorme gostoso. Ele sabe que eu estou pertinho cuidando do sono dele.

    Eu sei que a culpa deve ser minha. Sempre a culpa é minha se minha vida fica de um jeito que eu não gosto. E não estou gostando. Confesso.

    Tenho que fazer mudanças. Mas enquanto dentro do problema fica difícil ver o panorama geral e ter idéias.

    O trabalho está puxado. Todos os dias eu tenho agenda cheia e só casos empepinados. Está sendo muito intenso. Em compensação, a população da cidade e a chefia estão muito satisfeitos e querem que eu trabalhe mais. Ofereceram a Diretoria Técnica para mim mas eu ainda não aceitei.

    Lidar com médicos não é fácil. Existem dois tipos: os de ego tranquilo e os de ego frágil. Os tranquilos gostam de discutir casos, aprender uns com os outros, respeitam sua opinião, sua formação, hierarquia. Os de ego frágil têm a necessidade de se autoafirmar o tempo todo, não discutem casos, fogem e são grossos. No meu trabalho encontro os dois tipos. Trabalhar com outros médico onde há diálogo é uma delícia. Mas eu não tenho a mínima vontade de me relacionar com médicos idiotas e é o que teria que fazer se fosse diretora.

    Será que eu viro a Cuddy de fato?

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    Liliana | A UPA, Bichos Incríveis, Minha vida num sítio | Wednesday, November 4th, 2009

    Eu tive o melhor feriado do mundo!

    Não saí de casa nenhum dia. Fiquei de Havaianas, shortinho e top sem pentear os cabelos e óculos. Super a vontade.

    Dormi tudo que precisava dormir e voltei a me sentir forte e disposta como há anos não me sentia. O esforço físico de tratar do Tai junto com a calor e o sol maravilhoso fizeram maravilhas para meu organismo.

    Descobri que quando eu fumo muito, tenho sintomas de envenenamento por nicotina. Nunca ia imaginar que era tão fácil ficar envenenada. Diminui a quantidade de cigarros e quero muito parar de fumar. O bem estar sem o cigarro é visível. Porém, sou completamente viciada e diminuir a quantidade consideravelmente já e um grande passo.

    Os bichos passaram bem o feriado. Grudados em mim. Até o Mario, o sapo, insistiu em ficar perto do grupo.

    Eu descobri que o Tai consegue andar com ajuda de uma toalha na barriga apoiando o quadril. Ele adorou e tem passeado pelo gramado. Agora preciso providenciar aquele aparelho fisioterápico com rodinhas.

    Estava tudo muito bem, tudo muito bom até que acordei na terça-feira já preocupada em pagar as contas. O primeiro dia útil do mês é o pior dia para mim, o mais tenso. Acordei já meio chateada e fui para minha mesa na cozinha quando o computador avisa: “UPA Reposição”.

    Eu me esqueci completamente que havia combinado no trabalho que ia trabalhar todas as terças e quintas de novembro o dia inteiro para tirar uns dias em dezembro. Saí correndo e cheguei com quase meia hora de atraso.

    Eu detesto fazer as coisas correndo, com pressa. Odeio.

    Foi um dia interessante no trabalho. Não foi tão ruim apesar do começo torto. Atendi dois esquizofrênicos e ambos estavam em mal estado clínico. E ambos estavam internados em hospitais até pouco tempo. Isso significa o que eu sempre falo: que não se dá a devida importância para a parte clínica dos pacientes psiquiátricos.

    Doentes psiquiátricos têm mais outras doenças associadas que as outras pessoas. E a medicação que tomam favorece muito isso.

    E aconteceu uma coisa engraçada. Uma paciente chegou com o filhinho pequeno que começou a mexer em tudo pela sala. Ela mal impedia o menino de pegar nas minhas coisas. Uma hora, o garoto foi no interruptor de luz e ficou apagando e acendendo a luz do consultório. Por reflexo eu falei dura: para com isso menino! Como se estivesse falando com o Pepê. Foi tão automático dar a bronca já que eu fico dando bronca nos meus filhotes em casa o tempo todo. Expliquei para a mãe que estava tão acostumada a dar bronca e nem me toquei. Ainda bem que ela riu. De fato, meus cachorros são mais bem educados que aquela criança.

    Enfim, cheguei em casa e achei o Tai espumando e semi-consciente. Ele estava em hipertermia, o que é fatal. Foi uma correria para diminuir a temperatura corporal. Peguei um balde de água gelada e fui molhando o corpo dele até a temperatura abaixar. Meia hora depois ele já estava mais consciente e conseguiu beber água. Foi por pouco. Que susto. O resto da noite ele ficou irritado e muito cansado, obviamente. Até agora está quieto sem querer se mexer.

    Depois da emergência com o Tai, ainda fui cuidar das despesas da casa e só acabei minhas obrigações lá pelas 10 da noite.

    Que dia! Tudo que eu descansei em 5 dias, cansei num só.

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    Liliana | Bichos Incríveis, Minha vida num sítio | Tuesday, October 27th, 2009

    Como as palavras que tenho recebido têm me ajudado! Como é bom sentir o carinho das pessoas!

    Aqui em casa as coisas estão se ajeitando.

    Está claro que o Tai não está sofrendo. Ele agora é um cão paraplégico mas o resto está funcionando de acordo com a idade dele, 12 anos. Ele não está senil, não está triste, pelo contrário, ele quer participar de tudo. Da nossa parte estamos criando uma rotina nova para ele. E ele está gostando, que é o mais importante.

    Ele gostou de usar  fralda. Fica sequinho. Quando a fralda molha ele avisa, nós trocamos e ele fica quieto. Coloco ele deitado sobre uma fralda geriátrica grande e para trocá-la ele rola o corpo. Um amor.

    Esta noite ele me chamou às 11 e eu resolvi levá-lo para meu quarto junto com os outros cachorros. Eu sei que ele não gosta de bagunça mas ele adormeceu olhando para mim. E ficou quietinho a noite toda sem me acordar. Não ouvi um pio dele. Acho que o que ele queria era ficar junto de mim.

    Agora de manhã ele foi levado para a varanda, no lugar preferido dele, onde deverá passar o dia tomando conta da estrada e do jardim, como sempre tomou.

    Eu estou mais calma.

    Ainda com insônia e tendo que tomar remédio para dormir, mas sinto que ele não está sofrendo, está contentinho e recebendo muito carinho.

    A Graça assistente é muito dedicada também. Ajuda muito. E nem parece que essa rotina é novidade.

    Estou esperando chegar pelo correio um colchão de água para escaras. Tomara que o Tai se acostume com o colchão e não sinta muito calor.

    Interessante a reação dos outros bichos. Parecia que eles tinham desistido do Tai. Porém, quando o levei para o quarto ontem, todos foram cheirá-lo, abanando os rabos e o acolhendo.

    Antes que me perguntem, eu conversei com o veterinário sobre cadeira de rodas para o Tai e ele não tem mais indicação por causa da idade e da dor na coluna.

    Assim, nossa função aqui é deixá-lo bem feliz, com muito carinho, confortável dentro dos limites dele.

    E para não dizerem que não estou ligando para os outros, o Gigio e a Graça cachorra foram tomar banho no Pet Shop de fusca. O Gigio adora andar de fusca. É algo inexplicável o fascínio que ele tem por fuscas. Eles voltaram tão bonitos, tão cheirosos, tão fofos e esvoaçantes!

    O Pepê está na fase do Não. Tudo ele ouve “não”. Não pode isso, não pode aquilo. E eu proibi cachorros em cima da minha cama. E toda manhã, quando eu acordo, tem um Pepê dormindo enroladinho encostadinho em mim (ele sobe escondido durante a noite). Eu finjo que não vi, mas se me mexo ele abana o rabinho.

    A Joom La teve que virar adulta de uma hora para outra por causa do Pepê. Eles brincam quase o tempo todo mas ela sabe que não pode fazer certas coisas e fica com cara preocupada porque sabe que vem bronca. Para a Joom La ser a adulta da dupla é que o Pepê é muito sem noção!

    Bem, há um tempo atrás eu estava cheia de cachorros e bichos em geral e tinha prometido para mim mesma que ia pensar mais em mim. Mas… Olha eu de novo perdida entre seres de 4 patas. Acho que como tudo está se ajeitando vou retomar minha atenção para mim de novo.

    Cuidar de si mesmo é um exercício, que se a gente descuida, se perde em outros assuntos. Minha prioridade é acertar meu sono. Coisa tão básica e tão fundamental para mim. Objetivo: dormir 8 hora seguidas e na hora certa. Eu conseguirei!

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    Liliana | Bichos Incríveis, Minha vida num sítio | Thursday, October 15th, 2009

    Então o Tai foi de motorista para São José dos Campos tomar banho, fazer curativo, ser tosado e acabou tendo que dormir lá.

    Eu passei a noite sem o Tai com um silêncio estranho na casa. Demorei para dormir, uma ansiedade esquisita. Só no dia seguinte percebi que era a ausência dele que me deixou tão incomodada. O Tai nunca havia passado a noite fora de casa, nunca havia viajado sem mim.

    O Pepê também foi. Foi ser castrado e a operação correu bem. E confesso que a casa ficou bem silenciosa sem ele. O Pepê já conquistou seu espaço aqui.

    Quando estava indo para o trabalho ontem, cruzei com o transporte canino na rua e fiz questão de ver meus bichos. Os dois ficaram tão felizes de me ver que fiquei emocionada. A gente não imagina que pode ser tão importante para os cachorros. O Tai quando me viu queria pular fora do carro e ele nem consegue se mexer direito. O Pepê, que estava na gaiola chorava e lambia minha mão desesperado. Eles realmente estavam felizes de me ver.

    Já à noite, os 5 bichos ficaram juntinhos em volta de mim no quarto. Até o Tai.

    Falando em bichos, ontem se o Gato Branco fosse uma cobra tinha me picado.

    Tem um gato branco que vem comer a ração dos cachorros na varanda toda noite. Já tentei dar ração de gato, me aproximar, mas ele é muito arisco. Eu gostaria que ele fizesse amizade com a Manilha mas parece que ela não quer saber dele. Então ele vem na varanda mesmo comer e beber. Ele é enorme, bonito e bem peludo. Eu o chamo de Gato Branco.

    Quando eu fui cuidar do Tai na varanda, reparei que o sapo Mario estava ao lado do Tai. A Joom La cheirou o Mario e ele fugiu para o potinho de água. Ao lado do potinho percebi uma coisa branca que parecia um algodão. Era o rabo do Gato Branco do lado do sapo. A Joom La então viu o gato e começou latir chamando os outros cachorros. E o Gato Branco fugiu quando o Gigio, enorme, apareceu.

    Assim, a família estava toda reunida: cachorros, gatos, sapo e eu.

    Confesso que esses tempos estão muito especiais. Nunca me senti tão feliz, tão tranquila, tão realizada. Eu mereço!

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  • BláBláBlá O Twitter matou o blog…

    Liliana | A UPA, Bichos Incríveis, Minha vida num sítio | Saturday, October 10th, 2009

    Matou nada.

    O que mata o blog é não ter tempo nem assunto para postar.

    Nem tuitar eu tuito muito.

    Também não tenho lido feeds. O GReader mostra 1000+.

    Mas eu estou bem contente.

    Estou adorando trabalhar no posto. Curto atender gente. Me divirto com as consultas.

    É um trabalho bem legal a longo prazo cuidar da saúde de toda uma população. Tenho recebido pacientes descompensados e aos poucos vamos acertando medicação, fazendo diagnósticos… Deixando a vida do povo melhor, uma melhor qualidade.

    O feedback dos pacientes está excelente. Estão bem satisfeitos. E eu fico mais satisfeita ainda.

    (Aqui entra uma longa pausa porque o veterinário veio para tratar da cachorrada.)

    Bem, ter 5 cachorros e 1 gata dá um certo trabalho.

    O Tai, muito bravo, não permite que eu cuide dele direito. O resultado é que o câncer de pele dele na bochecha deu bicheira de novo. Ele está velho demais para ser operado e nos resta apenas cuidar das consequências. O veterinário e o ajudante tiveram um trabalhão cortando o pelo em volta da ferida e limpando os bichos. O Tai ficou bem cansado e estressado. Ficou combinado que ele seria internado na semana que vem para ser tosado por um profissional e fazer os curativos na clínica. Tadinho.

    Pepê foi vacinado e vai aproveitar a carona para São José com o Tai para ser castrado. Todos os bichos aqui de casa são castrados. Só falta ele.

    Joom La estava com abscessos por causa de bernes mortos e também foi tratada.

    Gigio e Graça estavam bem e não precisaram de consulta.

    Manilha devia ser vacinada mas desapareceu aqui de perto de casa. Foi vista no platô de baixo perto do jipe e acabou não sendo vacinada.

    O jipe ficou lá para baixo porque Seu Zé jogou terra fofa na estrada e com a chuva ficou impossível de qualquer carro subir, inclusive o jipe. A estrada é muito perigosa. Hoje ainda não choveu e pode ser que eu consiga trazer o carro aqui para cima. Tenho ido trabalhar a pé no barro até onde o jipe está estacionado. É muita vontade de ir trabalhar!

    Sem carro não posso ir no supermercado porque não consigo trazer as compras aqui para cima. O resultado é que estou em abstinência de coca zero. E ninguém pode me visitar inclusive no meu aniversário.

    Já contratei o depósito de construção para jogar pedrinhas na estrada. Mas eles só vem na terça e tem que fazer sol para o caminhão subir e a terra firmar. Morar num sítio exige manutenção constante. E se fica a mercê de barro e outros problemas rurais.

    Mas tirando a chuva, não tenho do que reclamar.

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    Liliana | Bichos Incríveis, Minha vida num sítio | Sunday, October 4th, 2009

    O tempo fechou e começou uma forte chuva durante a tarde de ontem aqui em SFX.

    Eu estava no quarto, embaixo das cobertas vendo filmes no computador e cercada pelos cachorros. Sabe aquele dia que a gente pensa: queria estar em casa quentinha vendo televisão? Pois é, eu estava.

    De repente a Joom La começa a latir na sala e se comportar de um jeito diferente. Fiquei preocupada porque parecia que tinha alguém rondando a casa. E fui investigar.

    Nos filmes de terror a gente se pergunta por que o mocinho vai lá fora no escuro ou na chuva ver aquele barulho estranho em vez de ficar na segurança do lar. Então, fui lá fora na chuva.

    Podia ser um serial killer.

    Mas não era. Era um cachorrinho do tamanho da Joom La mas bem magrinho e judiado. Amarelo. Assustado na garagem.

    A gata Manilha olhava o cachorrinho do alto da prateleira com curiosidade.

    Os outros cachorros latiam furiosamente e já estavam encharcados de ficar no gramado tentando ver o invasor.

    O que fazer?

    Peguei uma vasilha de comida e uma de água e fui para a garagem. O cachorrinho fugia de mim. Coloquei as vasilhas no chão e voltei para dentro de casa, ensopada de chuva.

    Já no quarto de novo os latidos continuaram. Levantei-me de novo e fui ver: o cachorrinho estava na minha porta. Pulou o murinho da garagem e veio atrás de mim.

    Nessa hora que você olha o bicho através do vidro da porta e pensa: fo-deu.

    Abri a porta e meus cachorros foram cheirar o novato. Rabinhos abanando freneticamente.

    Ninguém mordeu ninguém. Ninguém latiu para ninguém.

    Eu só pensava em voltar para minha cama e mais um cachorro era a última coisa que eu podia querer.

    Deu uma depressão aguda mais um cachorro.

    Pensei: vire-se cachorrinho. Aí tem comida, cama quente, amiguinhos, tudo que você precisa. Pode explorar a casa a vontade.

    Os outros cachorros imediatamente voltaram à rotina e nem ligaram mais para a novidade. Seguiram-me até o quarto de volta, se instalaram e voltaram a dormir. A Joom La é que ficou mais animada de ter alguém da idade dela e do tamanho dela para brincar.

    Não demorou muito e o cachorrinho tímido já estava no meu quarto.

    Mais um pouco ele subiu na minha cama, no meu colo.

    Deitou na caminha da Joom La embaixo da penteadeira e dormiu tranquilo.

    E essa noite eu dormi cercada por 4 cachorros. O Tai ficou na varanda.

    Minha sensação é que eu estava em uma espécie de favela de bichos. Que meu quarto era um cortiço de cachorros. Confesso que não gostei.

    Ao acordar hoje de manhã minha entourage me seguiu como sempre. Mas agora são 4 me seguindo. É ridículo andar pela casa com 4 bichos atrás. Eu só pensava no Cesar Milan com uma matilha enorme.

    Eu fiquei impressionada como o bichinho novo pegou as manhas da casa em menos de 24 horas. Ele já se comporta como se estivesse aqui há muito tempo.

    E já dei um nome: Pepê. Vem de Pedro Pellegrini, mas eu gosto de Pepê. O Pedro Pellegrini era um vizinho meu quando eu era criança que era apaixonado por cachorros e o sonho dele era ser groomer de cães.

    Eu fui chamando o cachorrinho de um monte de nomes. E quando chamei de Pepê ele atendeu. Foi assim que ele ganhou o nome.

    Como podem perceber, não estou animada com o novo bicho. Estou bem contrariada até. Mas o que eu posso fazer?

    Ao mesmo tempo que o Pepê apareceu aqui em casa acontece um evento na cidade em prol de cachorros abandonados. Uma amiga falou com a organizadora do evento para ver se dava um jeito no Pepê e eles não podem fazer nada. Óbvio que não fazem nada. Óbvio que sobrou para mim. Então, não me venham com palestras, workshops, campanhas sobre cães abandonados se ninguém vai me ajudar a pagar as despesas de mais um cachorro que vai saber não foi abandonado de propósito no meu sítio.

    E sabe o que aconteceria se eu pegasse esse cachorro e levasse na estrada para soltar? Adivinhem. (E eu nunca faria isso para começar.)

    Então, Pepê, bem vindo a esse cortiço.

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    Liliana | A UPA, Minha vida num sítio | Friday, October 2nd, 2009

    Ontem foi meu primeiro dia de atendimento aos pacientes usando o sistema informatizado da prefeitura.

    Estava preocupada porque sempre atendi escrevendo a mão e agora é tudo digitado e impresso.

    Minha sensação foi de retrocesso.

    Explico.

    O computador é lento a ponto de eu digitar mais rápido que ele.

    A impressora demorou 10 minutos para imprimir pedidos de exame numa consulta que deveria durar 15 minutos.

    O programa usado é mal feito. Não há diálogo entre entradas anteriores e as novas. Os resultados de exames têm que ser digitados pelo médico em vez de serem colocados direto no laboratório. Não é um sistema eficiente.

    Dá para perceber que a ênfase do programa é a cobrança dos procedimentos e não a troca de informações e a rapidez de atendimento.

    Por exemplo, em vez de puxar uma receita antiga e editá-la, eu tenho que dar entrada numa nova a cada consulta para o mesmo paciente.

    Resultado que o meu primeiro dia foi lento e eu atrasei as consultas. O sistema caiu 3 vezes. Não tem no break nem gerador.

    Fui informada que alguns bugs estão para serem consertados, o que vai melhorar um pouco. Mas o sistema em si tem uma arquitetura muito envelhecida tanto de software quanto de hardware.

    Eu sei que estou mal acostumada sendo usuária de Mac. E juro que estou com a maior boa vontade e quero que dê certo.

    Fora isso, estou me acostumando com a nova rotina de sair de casa para ir trabalhar. Acertando horários de almoço, de jantar, de compras, de resolver coisas da casa que antes eu podia fazer a qualquer hora.

    Aos poucos as coisas estão entrando nos eixos. A única coisa mais complicada está sendo meu sono. Estou tendo dificuldade de dormir na hora certa e acabo indo dormir lá pelas duas, o que é tarde. Mas tenho dormido com um sorriso nos lábios.

    Domingo eu tenho outro concurso da prefeitura, dessa vez para uma vaga de plantonista que talvez abra aqui em SFX. Minha preocupação é de que eu acorde na hora certa para viajar. Vamos ver.

    No geral estou bem animada e satisfeita.

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    Liliana | Minha vida num sítio | Monday, September 28th, 2009

    Tem um lagarto enorme morando na manilha da estrada na chegada da casa. Grande mesmo. Tentei tirar uma foto mas quando peguei o celular ele já estava se escondendo. Saiu só o rabo.

    A gata Manilha foge de mim. Acho que ela associou minha pessoa com os cachorros grandes e foge quando eu apareço. Mas ela é bem amigável e carinhosa com a Graça e Seu Zé. Ela cresceu bastante e se tornou uma gata bem bonita. Forte e aventureira em sua coleira cor de rosa.

    O Tai está praticamente paraplégico. Ele me exige o tempo todo até de madrugada. Fico bem cansada carregando-o para todo canto e dando comida e água na boca. Ele chora pedindo para ir fazer xixi, para entrar em casa, para sair de casa, porque está sozinho, porque o gato branco foi roubar comida da varanda. Hoje 4 da manhã ele estava aos berros me chamando. Eu o agrado, acalmo, puxo com o cobertor e torço para ele dormir e sossegar.

    Pesquisei e vi uma cadeira de rodas para cachorros. Não sei se ele se daria bem na cadeira. Ele provavelmente vai tentar morder quando formos colocar a cadeira e tirar.

    A geladeira queimou na última tempestade que acabou a luz. Faz seis dias. E o técnico só pode vir amanhã. Tenho colocado sacos de gelo que compro na padaria dentro dela e tem resfriado bem. Minha comadre de Miami disse que faz a mesma coisa quando tem furacão por lá e eles ficam sem luz por até 20 dias.

    Eu ainda estou me recuperando da besteira de tomar remédio vencido. Faz menos de duas semanas que voltei com o remédio certo e ainda não tenho todos os efeitos da medicação. Mas me sinto muito melhor. Parece que finalmente estou chegando no equilíbrio que eu queria e vou poder ir atrás do prejuízo. Sendo o pior prejuízo estar com 7 quilos acima do peso graças à medicação. Também estava fumando muito e já comecei a diminuir.

    Tenho dormido bem, quando os cachorros deixam. E tenho sonhado muito, o que é bom sinal.

    Esta semana começa uma nova rotina para mim: o meu trabalho no posto de saúde como clínica geral. Vai ser legal.

    Bem, acho que eram essas as notícias aqui de casa.

    E vocês? Como vão?

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    Liliana | Minha vida num sítio | Tuesday, September 22nd, 2009

    Eu não queria ir à dentista hoje. Esqueci completamente. A Graça que me lembrou que eu tinha hora às 3.

    Eu já estava pronta para descer na cidade e fazer compras e já tinha adiado essa ida way too much.

    Então fui.

    Imaginei que ia deitar na cadeira da dentista e soltar o corpo como faço e tentar cochilar.

    Era uma limpeza daquelas. E achei que ela ia dar anestesia.

    Para minha surpresa, ela não deu a anestesia e começou a cutucar meus dentes e gengivas furiosamente.

    Eu soltei o corpo, relaxei bastante e fiquei sentindo cada cutucada.

    Depois de alguns minutos, a boca toda já estava meio numa dor só. Uma coisa só, sensível.

    Mas era muito bom!

    Não era dor de dente, de nervo. Era uma dor gostosa.

    Uma dor de quem está vivo.

    Como as dores quando a gente está fazendo massagem num músculo dolorido.

    Uma sensação gostosa passou pelo meu corpo todo. Relaxamento e estar viva ao mesmo tempo.

    Música tocava na minha cabeça: Fix You do Coldplay.

    Foi muito bom!

    Não vejo a hora de voltar lá.

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    Liliana | Bichos Incríveis, Minha vida num sítio | Sunday, September 20th, 2009

    O dia acordou lindo e ensolarado aqui em casa e eu dormi bem, até tarde.

    Preguiçosa, tentei tomar o café requentando de ontem mas estava intragável e me dei um café novinho, cheiroso, quente.

    Para me acompanhar no café tardio resolvi ver um filme que baixei ontem, Mamma Mia, com músicas do ABBA. Mas não fui direto para o filme.

    Calmamente fui passear pelos vídeos do Youtube ouvir as músicas, ler as letras e a sensação de calma que eu experimentava se transformou num turbilhão de sentimentos dançantes.

    Amores que se foram, amores por vir, esperanças…

    Então resolvi assistir de fato o filme.

    Sentei-me em minha escrivaninha no meu escritório na frente do computador.

    As portas duplas bem abertas para o gramado e para a linda vista das montanhas e o céu azul.

    Logo no começo do filme, percebo que o filme é para mim: mulher madura, a mãe da noiva, não a noiva. E sou transportada para a Grécia.

    Conheci a Grécia há muito anos, ainda na época que me sentia obrigada a ter uma vida normal.

    Mas todo lugar que eu visitava eu via com olhos de potencial moradora. Eu me apaixonei por Rhodes, e queria ficar lá. Mas claro, não fiquei. Demorou mais uns anos até eu me libertar das convenções e sair fora de tudo. Sendo tudo o normal e o esperado.

    Mas a Grécia é linda.

    Enquanto lembrava de meus passeios por aquelas ilhas ao som do musical, de repente percebi dois olhos diferentes me fitando com curiosidade.

    A dez metros de mim, um enorme macaco preto com cara branca andava tranquilamente atravessando o gramado e me olhava. Curioso.

    Eu olhei para o macaco e demorou uns segundos até perceber que não era um dos meus cachorros na minha frente. E fiquei olhando de volta o macaco quieta até ele sumir atrás da paineira. Mais sensações incríveis passaram pelo corpo. Um macaco me olhando! Passeando! Enorme!

    E tudo se misturou na minha cabeça, Grécia, as Montanhas, as escolhas que fiz, o que perdi, o que ganhei.

    Amores.

    Quando o macaco já estava seguro me levantei e fui com a câmera atrás dele. E comigo foram os cachorros, claro. Tirei fotos de longe, não dá para ver direito.

    Absorvida no meio de música, macaco e lembranças e esperanças senti uma alegria incrível.

    Uma sensação de felicidade mágica.

    Eu desejo que todos vocês possam experimentar isso também um dia. É o supra-sumo de toda uma existência dando uma sensação boa, de que valeu tudo a pena.

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    Liliana | Minha vida num sítio | Saturday, September 19th, 2009

    Quando eu vim morar em São Francisco Xavier há 12 anos atrás, eu vim fugida de São Paulo. Cansada de tudo e de todos e inclusive da minha profissão.

    Não deu uma semana e eu estava na calçada, de bermuda, camiseta e Havaianas conversando com outras mulheres e o assunto era se valia a pena aprender a ler. Vi que basicamente estava fudida e que morreria de tédio logo, logo.

    Foi quando descobriram que eu era médica e me convidaram para trabalhar de clínica geral no posto de saúde. Eu nunca tinha feito aquilo e me pareceu interessante.

    Pouco tempo depois estava efetivada pela Prefeitura de São José dos Campos e tinha virado a Dra. Liliana de São Francisco Xavier.

    Mas a minha vida não é simples.

    Depois de uns anos fiquei muito doente e tive que sair de licença para um tratamento muito longo.

    E não me deram muita escolha: ou eu pedia demissão ou era aposentada por invalidez com todos os contras de ser aposentada precocemente.

    Eu definitivamente não me sentia inválida, então, pedi demissão de meu cargo público.

    Na época, eu estava bem financeiramente e não precisava trabalhar.

    Daí, há pouco menos de dois anos eu escolhi seguir meu coração o que me levou a um divórcio que me custou muito dinheiro e perdi minha estabilidade financeira.

    O único trabalho que existia para mim de novo aqui em São Francisco seria aquela vaga no posto de saúde, meu antigo cargo.

    Fui conversar com eles e eles se mostraram muito interessados que eu voltasse. Mas tinha toda a burocracia de concursos públicos e nomeações.

    Prestei o concurso e aguardei o chamado que aconteceu semana passada.

    Ontem passei no exame médico admissional e fui efetivada no cargo.

    Começo a trabalhar dia 29 de setembro, toda tarde.

    Fiquei muito tocada porque criaram o cargo para mim tal a vontade de me terem de volta trabalhando com eles. Isso significa muito ser tão querida.

    Por um lado parece que voltei a estaca zero. Mas prefiro pensar que foi como uma espiral, que apenas estou passando pelo mesmo ponto mas de uma forma completamente diferente.

    Obviamente que meus planos do nordeste estão suspensos indefinidamente. Vou curtir minha casa, meus bichos, o trabalho novo, escrever meus livros, me recuperar desses últimos anos que foram punk.

    Se eu me arrependo de alguma coisa? Não. Eu sempre olho para frente.

    E quem vive intensamente tem sempre as melhores histórias para contar.

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    Liliana | Minha vida num sítio | Saturday, September 12th, 2009

    Hoje em dia ter carro ficou muito mais fácil. São incontáveis prestações a perder de vista.

    Mas ter carro é mais do que pagá-lo. Tem a manutenção e os impostos. E o seguro.

    Eu sempre que vejo concursos oferecendo carros caríssimos para os ganhadores fico pensando nas despesas que essas pessoas estariam se metendo além do lindo presente de 4 rodas. E fico imaginando que se eu ganhasse um carro num concurso eu o venderia imediatamente. Prefiro minha parte em dinheiro.

    Há quase doze anos eu consegui comprar o carro dos meus sonhos: um Defender Land Rover inglês igual ao que via na série Daktari.

    Eu o comprei seguindo a filosofia dos Defenders: para sempre e para qualquer ocasião. Para nunca mais me preocupar com carros na vida.

    Para isso, eu tive que investir bastante. Tive que escolher construir uma casa ou comprar o carro. Escolhi o carro e deixei a casa para depois.

    E daí começou a manutenção e os impostos.

    E o seguro.

    Uma vez conversando com um amigo, ele estava na dúvida se ficava com um carro importado ou se trocava porque não tinha como pagar o seguro. Não dá para ter carro e não ter seguro. E ele acabou trocando de carro.

    Setembro é o mês que eu tenho que pagar o seguro do Defender. Recebi a proposta de renovação da seguradora que eu uso mas quis fazer uma cotação com outras. Foi quando descobri que não seguram carros importados com mais de 8 anos, me obrigando a manter minha seguradora atual que ainda se dispõe a segurar o jipe.

    Um Defender de alumínio de 12 anos ainda é criança nas minhas contas, mas já deu para sentir a pressão para se trocar de carro.

    Um sujeito há um tempo atrás veio me perguntar se eu andava em BMW velha insistindo que ele tinha uma novinha na garagem. Eu respondi que meu carro tem 12 anos, eu realmente não ligo para idade de carros.

    Eu ligo para a função.

    A tal BMW acabou atolando na estrada porque ele não quis ir com meu jipe.

    Precisou vir meu empregado com um fusquinha desatolar a BMW.

    O carro é uma extensão nossa. Serve de apêndice para nos locomovermos, aparecermos em sociedade, uma máscara para nos mostrarmos ao mundo.

    Meu jipinho vermelho é a minha cara.

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