Estou há tempos para escrever um texto sobre feedback. Tenho falado muito essa palavra ultimamente.
Aprendi o conceito de feedback na Faculdade de Medicina e é mais ou menos assim: uma ação ocorre e a informação da ação é passada para o outro. O outro vai reagir de acordo com a informação que recebeu. Então, o feedback pode ser positivo ou negativo.
O feedback positivo é quando a informação que chega estimula o receptor a fazer algo. O feedback negativo inibe o receptor a fazer e ação de resposta que ele está acostumado a fazer.
O convceito de feedback vale não só para nosso organismo mas também para as relações sociais.
Um exemplo de feedback positivo é você elogiar quando alguém faz algo legal e a pessoa se sente estimulada a continuar fazendo a mesma coisa legal.
O feedback negativo, ao contrário, visa inibir uma ação indesejada.
Eu acredito que uma boa razão da sociedade estar hoje como está é por absoluta falta de feedback das pessoas. Nem há feedback positivo nem negativo. E assim, as ações continuam a serem realizadas por absoluta falta de resposta a elas.
A ausência de um feedback negativo é entendido como uma autorização para o corpo continuar com a mesma ação. Por exemplo, uma glâncdula vai continuar produzindo seu hormônio até que receba o feedback negativo para que pare de produzir. A mesma coisa acontece com as pessoas. Elas continuam a agir do mesmo jeito até que alguém dê o feedback negativo de sua ação.
Mas por que as pessoas não dão o feedback para os outros?
Várias causas.
Uma delas é por confundir feedback com julgamento.
É diferente você julgar alguém e você explicar o que determinada ação de uma pessoa causou em você (que é o feedback).
Se alguém te trata mal e grita com você e você o chama de mal-educado, isso é um julgamento. Você está adjetivando o outro.Porém, se você diz para quem te ptratou mal que você não gostou de ser tratado assim e não quer mais que gritem com você, isso é um feedback. Perceberam a diferença?
O feedback exprime sempre o ponto de vista da reação da pessoa que o emite. O emissor do feedback é o sujeito da ação. “Eu não gostei.” “Eu prefiro assim.” “Eu senti isso.” E a referência é sempre o emissor do feedback: “Essa sua ação me causou isso.” “Quando isso acontece eu fico feliz.”
O perpetuador da ação não é julgado em momento nenhum. Mas os efeitos em você do que ele fez são comunicados a ele. Isso é o feedback.
“Eu gostei de receber suas flores.”
“Você faz eu me sentir bem.”
“Eu me sinto mal quando você me trata desse jeito.”
Quando julgamos o outro estamos abrindo possibilidades de discussão. O outro pode não concordar com nosso julgamento.
“Você é um idiota.” “Não. Não sou.”
Quando falamos o que estamos sentindo e o que o outro nos causa não há margem para discussão. Apenas nós sabemos o que se passa dentro de nós.
Acho que outra razão das pessoas não darem feedback é que o feedback implica em colocar limites. E as pessoas não estão acostjumadas a por limites. Vejo muita gente permissiva e suportando coisas desagradáveis até estourar e cortar relações em vez de colocar limites precisos antes das relações estarem comprometidas além do conserto.
São pessoas que se levam aos extremos quando não precisariam. Seria muito mais fácil dar pequenos feedbacks e fazer a sintonia fina das relações sem stress.
Ah, vocês vão dizer, mas é chato ficar dando feedback toda hora.
Sim. é chato. Por isso a gente só dá feedback para pessoas que nos interessam diretamente. Seja emocionalmente, seja num ambiente de trabalho que você terá que conviver com ela obrigado, ou seja, apenas em situações que vale a pena gastar seu latim.
E há os “feedbacks sociais” como votar ou não em um determinado político. Usar ou não um determinado serviço de uma empresa. Esses feedbacks exigem um posicionamento da pessoa. E é esse posicionamento e esse feedback que faz as coisas mudarem para melhor.
E daí? Você deu seu feedback. Mesmo assim isso não é garantia que você conseguirá o efeito desejado. Mesmo no nosso organismo existem doenças que atrapalham a leitura das informações e os feedbacks passam em branco.
Como funciona então em relação às outras pessoas?
Também acho que esta deva ser outra causa de não se darem feedbacks por aí: você pode não ter o efeito desejado e ter que tomar uma atitude. Quando a gente não fala nada e deixa quieto, não coloca sua posição, não precisa tomar nenhuma atitude se não somos confrontados.
Mas, ao exprimirmos um sentimento, um desagrado, um feedback e mesmo assim continuamos a receber o mesmo estímulo desagradável a história muda. Quem nos atinge está nos atingindo sabendo que não estamos gostando. E se permitimos que a situaçõ se mantenha nós passamos a nos sentir conscientemente mal. As pessoas preferem geralmente permanecer se sentindo mal no inconsciente pois não precisam tomar atitudes, não se sentem cobradas a agir.
“Eu já falei que eu não gosto disso. Ele continua a fazer isso comigo. Eu tenho que tomar uma atitude como parar de me relacionar com ele, por exemplo.”
“Todo dia eu faço X e Fulano faz Y e o resultado é Z. E eu não gosto de Z. Eu tenho que parar de fazer X.”
Toda mudança implica em dispêndio de energia. Pelo menos é uma energia gasta para um fim bom. Muitas vezes a não ação apenas passa a falsa impressão que não estamos gastando energia num assunto, mas estamos nos consumindo por dentro, que é um gasto de energia muito maior e sem nenhuma finalidade prática além do nosso sofrimento.