Minha Breve Opinião Sobre Twitter, Blogosfera e Outras Coisinhas

Liliana | Admirável Mundo Velho, Blogworld | Tuesday, April 7th, 2009

Tears in the rain

Enough said.

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    Liliana | Admirável Mundo Velho | Sunday, March 29th, 2009

    Fazia muitos anos que eu não dava plantão e não atendia emergências.

    A maioria dos casos que a gente atende é coisa simples que a gente fica pensando o porque que a pessoa resolveu ir ao médico. Entendo que que os pacientes vão nos procurar por coisas simples por insegurança. E é nossa função assegurar que está tudo bem, que vai passar, que não há nada para se preocupar.

    Porém, a razão principal de um plantão médico é atender aqueles casos realmente graves. E fazia um bom tempo que eu não atendia casos assim. Ou seja, casos de vida ou morte.

    Eu já estava desacostumada a sentir aquele medo perfeitamente compreensível de ser responsável pela vida de outrém. Ainda mais onde eu trabalho: num posto a 60 km do hospital mais próximo e com recursos bem limitados. E o que tenho para fazer? Dar o primeiro atendimento, tirar da emergência e transferir o paciente para o hospital de referência num ambulância pequenininha por uma estrada superperigosa. Sozinha com um auxiliar de enfermagem e o motorista.

    Atendi dois casos graves neste último plantão. E consegui entregá-los bem estabilizados no hospital com os recursos que eu dispunha.

    Depois que passa a tensão, a sensação é uma as melhores do mundo, de salvar a vida de alguém. Ela é proporcional à tensão que se sente. E vocês podem imaginar o alívio que se segue.

    Há anos eu tinha desistido de me expor a essa tensão porque isso desgasta muito. Mas tinha esquecido a sensação boa de um trabalho bem feito dessa natureza.

    Aqui fica minha homenagem a todos que trabalham com Emergência, médicos e enfermagem.

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    Liliana | Admirável Mundo Velho | Sunday, March 29th, 2009

    - Doutora, eu machuquei o joelho jogando futebol e está doendo. Daí, eu fui jogar de novo e doeu mais.

    - Querido, eu trabalhei 24 horas sem parar e sem dormir, por que eu estou assim?

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  • Black Boys On Mopeds

    Liliana | Admirável Mundo Velho, Músicas | Sunday, March 15th, 2009

    Eu estava fazendo esteira ouvindo o iPod quando tocou uma música da Sinéad O’Connor, Black Boys On Mopeds e ela cantava assim:

    “…These are dangerous days
    To say what you feel is to dig your own grave…”

    Isso me pegou fundo porque eu nunca me senti tão calada.

    Porque, a não ser que você fale as coisas certas, você está cavando sua sepultura.

    Tudo que se fala é escrutinado e julgado e você é aprovado ou reprovado e carimbado para todo o sempre com algum adjetivo.

    E se eu falar que eu não dei a mínima para o comercial do Doritos? Que eu não achei nada demais? Que já vi melhores mas não me chamou a atenção em absoluto?

    Para vocês, Sinead O’Connor:

    Black Boys On Mopeds (Sinead O’Connor)

    Margareth Thatcher on TV
    Shocked by the deaths that took place in Beijing
    It seems strange that she should be offended
    The same orders are given by her

    I’ve said this before now
    You said I was childish and you’ll say it now
    “Remember what I told you
    If they hated me they will hate you”

    England’s not the mythical land of Madame George and roses
    It’s the home of police who kill black boys on mopeds
    And I love my boy and that’s why I’m leaving
    I don’t want him to be aware that there’s
    Any such thing as grieving

    Young mother down at Smithfield
    5 am, looking for food for her kids
    In her arms she holds three cold babies
    And the first word that they learned was “please”

    These are dangerous days
    To say what you feel is to dig your own grave
    “Remember what I told you
    If you were of the world they would love you”

    England’s not the mythical land of Madame George and roses
    It’s the home of police who kill blacks boys on mopeds
    And I love my boy and that’s why I’m leaving
    I don’t want him to be aware that there’s
    Any such thing as grieving.

    Sinead O’Connor - Black Boys On Mopeds

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  • Dã… Dia da Mulher?

    Liliana | Admirável Mundo Velho | Tuesday, March 10th, 2009

    Já foi?

    Foi, né?

    Dia 8.

    Mas só hoje achei algo que expressa direitinho o que eu penso sobre o assunto.

    A Song For The Ladies - Jon Lajoie.

    Mais de onze milhões e duzentas mil exibições no YouTube.

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  • O Brave New World

    Liliana | Admirável Mundo Velho | Monday, March 9th, 2009

    O, wonder!
    How many goodly creatures are there here!
    How beauteous mankind is! O brave new world,
    That has such people in’t!

    • Miranda, scene i, The Tempest by Shakespeare

    O brave new world! Que tem essa gente nele.
    Essa gente que se levanta todo o dia após dia contra todas as chances e continua.
    Vai atrás.
    Bate cabeça.
    Erra.
    Cai.
    Levanta.
    Anda de novo.
    Tenta.
    Incansavelmente.

    O Brave new world! Que tem essa gente nele.
    Gente que sofre por amor mas continua amando por absoluta falta de saber viver sem amor.
    Que faz famílias que se odeiam e brigam e se amam bem escondido lá no fundo.

    O Brave New world! Que tem essa gente nele.
    Teimosa.
    Que quer ver o mundo ser bravo. Mesmo sendo tão bravo.
    E ainda assim acha bonito.

    How many goodly creatures!

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  • Lembranças Esparsas no Café da Manhã

    Liliana | Admirável Mundo Velho, Viagens | Tuesday, February 24th, 2009

    O computador avisa: it’s nine o’clock. E eu me lembro da música do Genesis: it’s one o’clock and time for lunch… 

    It’s nine o’clock and time for breakfast.

    E estou eu, a mesa posta com minha xícara de café com leite, cachorros deitados a minha volta, computador do lado da xícara e uma obrigação horrível de escrever algo significativo no blog.

    Como assim?

    Hoje é feriado, dia de descanso. Não tenho que escrever nada de importante. 

    Ontem eu também descansei. Vi dois filmes: Slumdog Millionaire e Rachel Getting Married.

    Não gostei de Slumdog. De coisa feia basta os problemas do dia a dia. Eu fiquei mais de um mês na Índia passeando há muitos anos atrás e estou por aqui de Índia. 

    Fui para lá toda animada esperando uma experiência mística. Tinha estudado toda a mitologia, lido poemas, a história, mas ver um povo vivendo a mitologia como se fosse real deu um resultado terrível. Um país sujo e feio e atrasado.

    Eu participei de rituais indianos em templos sujos e escuros com gente adorando pedras e pintando nossos rostos de vermelho.

    Eu vi cadáveres de párias sendo comidos por cachorros às margens do Rio Ganges em Varanasi.

    Eu conheci o interior da Índia que os turistas não costumam conhecer. Fomos de ônibus e trem atravessando o país até a fronteira com o Nepal.

    A Índia tem cores salpicadas aqui e alí. Pontos bonitos escassos perdidos no meio da sujeira e de fezes e outras secreções humanas.

    Eles usam vassouras de piaçava sem cabo. Então, ficam de cócoras varrendo o chão que nunca fica limpo, que nunca fica sem poeira, que nunca muda daquela cor de terra esmaecida, cor de sujeira.

    A única coisa branca realmente branca da Índia é o Taj Mahal. O resto é sujo. Por isso que faz tanto sucesso.

    Se eu vi coisas bonitas? Claro que vi. Mas eu não sou hipócrita de destacar o bonito do contexto geral. E o geral é triste.

    Eu já fui em favelas brasileiras fazendo trabalho médico e nada se compara à Índia. O nosso pior está a anos-luz de diferença deles.

    Minha experiência mística na Índia durou exatamente o tempo de chegar e olhar em volta.

    Fui em templos budistas importantes também. E tive medo que roubassem meus sapatos.

    Fui em mesquitas e tive que me cobrir com panos imundos porque estava de camiseta de mangas curtas.

    Indús, muçulmanos, budistas, conheci suas culturas e seus lugares e todos me passaram a impressão de estarem fora do tempo. Ultrapassados. Nisso não tenho preconceito: meu julgamento foi negativo igualmente para todos.

    Slumdog Millionaire mostra a Índia. É isso aí. E no filme ainda nem mostra tudo. Tem coisa pior lá. Acreditem.

    Já Rachel Getting Married lembra Roberto Altman, quem o diretor do filme agradece nos créditos finais. Não é um Altman. Mas é um bom filme. E coincidentemente mostra um casamento no estilo indiano em plenos EUA numa família de classe média alta que não tem nada de indiana mas resolve fazer um casamento no tema “Índia” pegando só o que tem de bonito da cultura: as roupas, a decoração, as bijuterias… Fica lindo. 

    Eu tenho um sari maravilhoso que eu trouxe.

    Na Índia eu conheci um casal de lá em lua de mel que viajou conosco de ônibus por um pedaço do caminho. Ela ainda portava aqueles desenhos de henna nas mãos e nos pés. Muito bonito. Mas eles contaram coisas como tiveram sorte de se gostarem e poderem se casar. Porque não era garantia de se casar com quem se ama lá. E tinha o problema do dote. Sim, dote. Ele pode pagar o dote e estava muito feliz. Contou que demorou anos para juntar o dinheiro do dote que o noivo devia pagar para a família da noiva. Eles se achavam um casal moderno porque o casamento não tinha sido arrumado. “Vocês podem casar com quem vocês quiserem?” Imaginem minha cara ao responder que sim.

    Mas por que essa antipatia tão grande, Liliana?

    Eu tenho uma visão do mundo como uma coisa só. O indivíduo aqui no Brasil é igual o indivíduo do outro lado do mundo. A informação já se espalhou. Somos uma coisa só: a raça humana. Na História da Humanidade já vimos coisas que funcionaram e coisa que não funcionaram. Então não vejo lógica de se manter hábitos que já se mostraram ineficazes e nocivos. A Índia como um todo está ultrapassada e insiste em viver segundo mitologias de milhares de anos atrás, na pior das hipóteses, de séculos atrás.

    É… Mas estou querendo muito.

    Eles que são indianos que se entendam.

    Mas não esperem que eu faça apologia da ignorância.

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  • Liliana, Programadora

    Liliana | Admirável Mundo Velho, Blogworld | Monday, February 16th, 2009

    Minha família nunca me entendeu.

    Por exemplo, naquelas férias num verão distante que nem lembro quando, eles não entendiam porque eu não saía do apartamento e ia para a praia.

    Meu tio, engenheiro, tinha acabado de comprar um computador CP200 da Prológica e tinha levado para nosso apartamento na praia. Nossas férias eram aquela coisa familiar de juntar um monte de parentes no apartamentinho pequeno com a avó fazendo o almoço, essas coisas.

    Mas tinha o tal computador que eu nunca tinha visto pessoalmente.

    E foi suficiente para eu trocar toda a praia, todo o sol, todas as paqueras e o mar.

    Eu quis aprender a mexer com aquele negócio.

    Eu sou auto-didata.

    Então, sentei a bunda no chão, e comecei a mexer.

    Fiquei fascinada. E resolvi programar.

    Eu me lembro de conversar com o computador, ir entendendo a linguagem que nem sei que nome tinha.

    E programei.

    Foi algo simples, mas muito significativo:

    - “Olá”.

    - “Olá.”

    - Qual o seu nome?”

    - “Liliana. E o seu?”

    - “Pau no cu do curioso.”

    E assim se encerrou minha carreira de programadora. E eu pude ir para a praia aproveitar o restinho do verão.

    E desde então eu mantenho uma relação toda especial com os computadores.

    (Inspirada por este texto aqui.)

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    Liliana | Admirável Mundo Velho, Dinheiro: é bom e eu gosto. | Monday, February 16th, 2009

    -… então já estou descendo. Eu não fiz o estrogonofe. Não ia dar tempo para descongelar a carne e eu tenho um compromisso à uma.

    - Como assim?

    - É, deixa para semana que vem. Semana que vem eu preparo a comida do fim de semana. Hoje já deu e eu tenho coisa para fazer a uma.

    - Andréia, só para te lembrar, você trabalha aqui o dia todo. Eu é que permito que você saia antes quando não tem mais o que fazer.

    - Não. Eu trabalho aqui só meio período. Das oito ao meio-dia.

    - Não foi isso que eu combinei com você.

    - Mas foi isso que seu ex-marido combinou comigo quando me contratou.

    - Mas depois, quanto eu te contratei, foi pelo período inteiro e eu te dispensaria se não tivesse mais o que fazer aqui porque eu não vejo razão de manter alguém aqui sem nada o que fazer.

    - Não…

    - Sim… Você acha sinceramente que eu te pagaria o que eu te pago só por meio período? E porque eu te levaria para São José à tarde comigo? Porque eu gosto de você? Porque fazia parte do seu trabalho.

    - Ah, mas daí eu não quero. É melhor você procurar outra pessoa então.

    - Você acha que esse seu salário é por apenas 4 horas de trabalho? Então, tá. Considere-se em aviso prévio.

    Hoje acordei ouvindo os barulhos habituais na cozinha. Barulhos que não vou ouvir mais.

    - Pode parar o que está fazendo. Você não trabalha mais aqui.

    - Mas eu não tenho que cumprir o aviso prévio?

    - Não. Vou te pagar tudo porque não quero mais você trabalhando aqui em casa. Não tem mais a ver. Aqui está o cheque com a quantia que eu falei com o contador, aqui estão os recibos. É só assinar aqui, aqui e aqui.

    (Ela começa o chorar.)

    - Eu quero agradecer tudo que você fez por mim.

    - Uma pena que tenha havido esse mal-entendido. Então tchau.

    (Ela sai chorando.)

    - Minhas chaves da casa, por favor.

    - Ah, já ia esquecendo… Estou tão acostumada.

    Moral da história: A Andréia era uma mulher que tinha tudo: um emprego com um salário bem acima da categoria dela. Uma patroa que a ajudou a construir a casa própria e a mobiliá-la toda. Era empregada de alguém que sempre a tratou com respeito, que lhe pagou cursos de manicure e massagem para ela melhorar de vida. Tinha total liberdade no trabalho para levar seus afazeres na medida dela, sem ninguém cobrando nem impondo. Mesmo assim, ela quis mais. Foi mesquinha? Talvez. Burra? Com certeza.

    Exatamente por ela não ser inteligente é que ela não vale o salário dela por apenas 4 horas.

    Assim, meninos e meninas, antes de querer forçar alguma barra, avaliem bem a situação. E não confundam gente legal com gente boba.

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    Eu sou atéia. Acho que todo mundo sabe.

    Adoro mitologia. Não sei se já sabiam.

    Compreendo a importância dos rituais para as pessoas.

    Rituais são importantes para mim também.

    Dada a introdução, vamos aos fatos:

    Quando mais de 3 pessoas falam para você que você tem que tomar um banho de sal grosso e você vê sua vida e faz sentido, considera seriamente a sugestão.

    E foi assim, que eu, munida de uma canequinha lotada de sal grosso, me dirigi ao chuveiro.

    Água corrente: check.

    Sal grosso: check.

    Mulher de saco cheio: check.

    Fora saber que não podia jogar o tal sal grosso na cabeça, eu não tinha idéia como era tomar um  banho de sal grosso.

    Fazer orações? Nenhuma noção.

    Pedir o que, para quem? Sem o mínimo sentido para uma atéia.

    Usei a imaginação: catava punhados do tal sal, bem grosso diga-se de passagem, e esfregava no corpo.

    Ao mesmo tempo falava em voz alta (ai, ai, confesso. falei mesmo): sai coisa ruim. limpa tudo que for ruim de mim, da minha casa, dos meus queridos. Sai! Limpa! Vem, coisas boas!” E vai por aí adiante, acho que vocês já pegaram a ideia da coisa.

    Rituais são bons. Dão um certo efeito psicológico.

    Bem, já limpa de coisas ruins (?), avisei a todos da minha limpeza, porque tem o fator “os outros tem que acreditar também”. Ou melhor, o ritual funciona para cada um em diferentes níveis.

    - Oi querido, tomei um banho de sal grosso.

    - … (faz cara de saco cheio e balança a cabeça querendo dizer: “só mulher para vir com essas coisas.”)

    - Agora você precisa tomar também.

    - E-U N-Ã-O V-O-U T-O-M-A-R B-A-N-H-O D-E S-A-L G-R-O-S-S-O!

    (discute, discute, discute)

    Muito balançares de cabeça depois, proponho:

    - Mas querido, eu dou o banho em você. Eu passo o sal grosso no seu corpo todinho e a gente toma banho juntinho… (no meu melhor estilo sexy convidativa)

    - N-Ã-O!

    - Então é o seguinte: no MEU banho, eu desejei que tudo de ruim fosse embora. Se você for ruim, você vai embora, viu? Você só vai ficar se for bonzinho.

    Ele ficou.

    Porém, a surpresa veio dois dias depois: adivinha quem vai embora?

    Andréia, a empregada.

    Essa veio do nada! Ninguém esperava essa virada do destino. E por causa de um estrogonofe.

    Mas isso já é outra história…

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    Liliana | Admirável Mundo Velho | Wednesday, February 11th, 2009

    No meio de uma praça devastada pela enchente apenas uma alma viva: uma mulher praticamente se joga na frente do jipe agarrada a sua bolsa gritando por uma carona até São José.

    Ninguém na rua.

    - Por favor, pode me levar até São José? Eu tenho que estar lá. Não tem ônibus, não tem ninguém indo para lá hoje. Só passou vocês.

    Ela entra na traseira desconfortável do jipe agradecendo.

    - Como é seu nome?

    - Cecília.

    - O meu é Liliana e essa é a Andréia.

    - Prazer. Ainda bem que vocês apareceram. Ninguém está pegando a estrada hoje. Tá todo mundo com medo. Nem ônibus. E eu tenho que ir para São José de qualquer jeito.

    - O que você faz, Cecília?

    - Sou professora e hoje é dia de pegar as aulas na prefeitura. Não posso faltar se não fico sem trabalhar. Que sorte que vocês passaram. Ontem à noite eu fiquei numa barreira aí na estrada porque a chuva foi muito feia. A gente teve que chamar o vice-prefeito que mandou a máquina para desobstruir o caminho. Levou horas. Hoje ninguém quer arriscar.

    - E foi feia mesmo né?

    - Você não imagina aqui em Monteiro como foi. Eu estava com meus dois filhos em casa e a água chegou no nosso muro. E eu moro até que numa parte alta. Mas eu tranquei a porta da frente, peguei as crianças uma em cada braço e subi na laje. E fiquei rezando para não desmoronar. Hoje, eu tive que deixar as crianças sozinhas porque tinha que ir mesmo para São José. Falei para elas: se começar a chover, tranquem tudo e subam na laje de novo.

    - Engraçado… Só nós 3 mulheres na estrada…

    - A gente é corajosa, né?

    Os homens não entendem as mulheres. Fazem piadas conosco, brincam.

    Ontem eu conversei com uma mulher normal que se comparada a maioria dos homens era uma heroína, apenas por estar do lado de fora de casa, batalhando seu sustento e de seus filhos.

    Essa resistência feminina é que assusta os homens. Tem uma palavra em inglês que eu gosto muito que descreve bem: “endure“.

    A outra palavra que eu gosto e que vem junto e combina com a primeira é “prevail“.

    Essas duas palavrinhas explicam toda a misoginia.

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    Liliana | Admirável Mundo Velho, Filosofando, Minha vida num sítio, São Francisco Xavier | Wednesday, February 11th, 2009

    A dúvida que não quer calar é: quando eu vou poder comprar algo que não esteja em liquidação/promoção/saldão/baciada?

    Ontem Andréia e eu fomos numa expedição para a cidade grande fazer as compras do mês da casa. Fomos para São José dos Campos um dia depois de uma das piores tempestades dos últimos 30 anos.

    Foi mesmo uma expedição.

    Em quase 12 anos que estou morando aqui e a Andréia que nasceu aqui nunca vimos os estragos que a chuva causou na estrada e nas cidades por onde passamos.

    Para vocês terem ideia, caiu uma barreira dentro do meu sítio: nossa estrada foi fechada porque parte do morro despencou. E em toda a estrada várias barreiras caídas e pior: a estrada de asfalto cedeu em vários pontos e rachou em outros estando prontinha para despencar.

    Partes da estrada também estavam submersas e só jipes e picapes altas passavam.

    Demos carona para uma professora de Monteiro Lobato, a cidade vizinha, e ela nos contou que Monteiro ficou embaixo d’água. A praça principal teve água até metade das portas. Os trialers boiavam. O supermercado foi invadido pelas águas e o estoque foi perdido assim como o da casa de ração. Ela contou que o povo de lá ficou perto do rio esperando as caixas de cerveja e de refrigerante virem rio abaixo.

    Quando passamos por Monteiro, na volta, pudemos ver as marcas da água nas paredes: um metro pelo menos.

    A professora também contou que havia chovido mais de 70 mm de água naquela noite e que deveria chover mais de 120 mm ontem. Então, resolvemos apressar nossa viagem, adiar certas coisas para outro dia e tentar voltar antes da chuva. Mas, de qualquer forma, seria mesmo uma aventura.

    Morar em São Francisco Xavier é uma aventura. É.

    Mas mesmo com a ameaça da nova tempestade não desistimos e fomos para  comprar a ração dos cachorros, nossa primeira parada. Comprei a ração em promoção, lógico.

    A parada seguinte foi no Extra, onde fiz a festa comprando tudo que era marca genérica e mais promoções.

    Depois, fomos até o Pão de Açucar onde tem o açougue que eu gosto apenas para comprar carne. E lá, havia promoção de sorvete Rägen Daaz. Dois potes e um descontão.

    Resultado, me dei de presente um sandália Havaianas dourada da liquidação do Extra e um pote de sorvete Rägen Daaz da promoção do Pão de Açúcar. O resto, coisas para minha sobrevivência e dos cachorros.

    A que ponto que a gente chega que nem uma sandália Havaianas eu tenho coragem de comprar se não estiver na promoção?

    A Andréia brinca comigo: você é a rainha da promoção. Caramba, até meu jipe eu comprei numa promoção com desconto.

    Acho que estou tão acostumada a só comprar o que sobrou, o refugo, o que não saiu e que colocaram para torrar, para liquidar…

    Mas isso me incomoda. É como se eu não conseguisse mais desejar algo e simplesmente ir lá e comprar na hora que eu quero. Eu espero entrar na promoção e se ainda sobrar o que eu gostei, daí sim, eu levo.

    Roupa sem estar na liquidação? Nem sei o que é isso.

    Sapatos? Idem.

    Por isso só compro roupas e sapatos nas liquidações de inverno e verão, duas vezes por ano.

    É. Acho que fiquei chocada com a promoção do sorvete. Foi demais.

    Com vocês também é assim?

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    Liliana | Admirável Mundo Velho | Sunday, January 18th, 2009

    Ônibus com mensagem ateísta é proibido de circular na Itália.

    Nós estamos em que século mesmo? Vinte e um?

    Só para saber…

    Mais informações aqui na BBCBrasil.

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    Liliana | Admirável Mundo Velho | Friday, January 9th, 2009

    Ridículo! Ridículo! Ridículo!

    Só posso chamar de ridículo!

    Uma mulher da minha idade, com a minha formação. Com cursos de Nutrologia inclusive, ingenuamente solta para seu parceiro:

    - Poxa! Ontem, que eu não comi chocolate, eu não engordei…

    A resposta certeira e cortante obviamente foi:

    - Não diga!

    Mas eu insisti:

    - Preciso parar de comer doces se eu quiser emagrecer.

    E ele:

    - Verdade?

    E eu, ridícula, fui me tocando.

    E justamente hoje chegou a balança nova que eu comprei em conjunto com o tal aparelho de pressão de pulso automático.

    A Joom-la comeu meu esfigmomanômetro antigo, da época da faculdade. E resolvi me dar de presente um aparelhinho novo que mede a pressão sozinho. Daí, tinha uma oferta que se comprasse o tal aparelho e uma balança digital vinha um descontão. Eu tenho daquelas balanças de consultório, claro, eu tenho um consultório. Mas carecia de balança de banheiro.

    E juntamente com a constatação de que se a gente come doce engorda, chega a balança.

    Andréia e eu subimos e foi um terror.

    Uma de cada vez, entendam. Mas mesmo assim foi um terror.

    O ser mais magro aqui de casa é a Joom-La. Fato.

    E não me digam que eu sou alta e não aparece. 

    A Carmem da padaria falou: Doutora, está diferente! A cara está redonda. Está inchada?

    - Remédios, Carmem. Remédios… (E Nutella. Muita Nutella.)

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    Liliana | Admirável Mundo Velho, Bichos Incríveis | Saturday, December 6th, 2008

    O Bender é uma gracinha e fez um post montando um elenco de uma novela blogosférica me colocando como protagonista da tal novela. E no post ele põe para ilustrar a foto do Lima Duarte. Isso me fez lembrar um causo que aconteceu anos atrás envolvendo o Lima Duarte, a Débora Duarte, eu e um cachorro chamado James.

    Eu estava passando uma temporada num spa (bons tempos aqueles em que eu podia passar uma temporada num spa) e lá no spa um dos funcionários tinha uma cadela Golden Retriever com 3 filhotes para vender. Eu estava lá com minha fêmea chow chow e ela se deu superbem com os filhotes de Golden e tanto ela como eu estávamos apaixonadas por eles.

    Eu acabei comprando um dos filhotes e dei o nome de James. Outras hóspedes do spa ficaram animadas e os outros dois filhotes foram logo vendidos porque o lugar era muito “pet friendly” e todos estávamos muito contentes com nossos cachorros novos.

    Um belo dia chega a Débora Duarte para ficar hospedada também e logo ficamos amigas. Indo passear pela cidade vizinha, fazendo atividades juntas, batendo papo, essas coisas.

    Pois ela me convida para ir ao aniversário do pai dela: você é o tipo de mulher que meu pai adoraria conhecer, diz ela.

    E assim, fui convidada para almoçar na casa do Lima Duarte com a família.

    Mas o que eu levaria de presente? Daí fico sabendo que ele adorava cachorros e morava num sítio na beira de uma represa próximo de onde estávamos. E um de seus cachorros havia morrido, se não me engano (a história já faz um tempo e não me lembro direito).

    Bem, Débora e eu resolvemos levar o James para ele num presente conjunto.

    Arriscado? Sim.

    Fomos de motorista particular com a irmã dela que veio nos pegar e nos levou a uma casa muito agradável e simples, sem frescuras. A cara dele.

    Acho que no princípio o Lima Duarte tomou um susto de ganhar um cachorro. Mas logo em seguida, uma das coisas mais fantásticas era ouvi-lo chamando “James” com aquela voz poderosa que tantas vezes eu ouvi na televisão. Ele enchia a boca para falar: James!

    E o James adorou o lugar. O gramado, o lago, tudo.

    Conversei longamente com o Lima Duarte. Ele me mostrou tudo por lá: suas carpas de estimação, que ele falava “nishiquigói” (acho que é assim), suas pingas que eu tive que provar. Um homem galante e charmoso.

    O almoço de família só tinha eu de estranha. Simples e gostoso. E ele contava histórias para me impressionar. E impressionava.

    No fim do dia fomos embora e ele se despediu no portão.

    A impressão foi que ele era exatamente igual aos personagens que ele fazia na TV: um homem macho até o último fio de barba. Que impõe respeito, medo e ao mesmo tempo muito sedutor e justo.

    Nunca mais o vi. Até que gostaria de saber do James e dele. Que dupla…

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