Quando eu tinha 17 anos um primo ficava me telefonando nas horas mais estranhas para conversar sobre o nada.
Eu sempre tive paciência com as pessoas. Acho que já era meu lado médico de entender o sofrimento do outro.
Mas esse primo telefonava para todos os outros primos e geralmente recebia uma negativa. “Fulano não está.” “Fulano está ocupado.” Porque todo mundo falava por trás que ele era muito chato. E ninguém aguentava o chato. Ninguém queria falar com o chato.
Ele era um rapaz bonito, de família muito boa, inteligente.
Uma noite, chegou de uma festa vestindo blaser e tudo e subiu até o último andar do prédio.
Lá, tirou o blaser e dobrou direitinho na escada e se atirou pela janela.
A mãe dele estava acordada na cozinha esperando o filho chegar e ouviu um grito de algo caindo.
Era o filho.
A notícia do suicídio dele foi um tapa na cara de todos os primos que se recusaram a falar com ele e o chamaram de chato.
“Por que eu não atendi aquele telefonema?”
Esse foi o primeiro suicídio que me marcou.
O segundo eu já era médica e uma parente de uma amiga, uma mulher de meia idade que tinha apartamento no mesmo prédio que minha família na praia pegou uma faca de pão, daquelas serrilhadas e abriu sua barriga e se deu várias facadas no peito.
Ela foi levada para o hospital onde eu fazia residência ainda viva e me pediram para acompanhar o caso. Eu a visitava todos os dias.
O corte na barriga fez com que todos os órgãos internos saíssem para fora.
Passado uns dias internada no hospital, ela se jogou da janela do quarto caindo na marquise da entrada do prédio e abrindo todos os pontos. Não morreu. Pegou uma infecção e ficou meses internada até se recuperar. Nunca mais soube dela.
Nesse caso da mulher das facadas eu só conseguia vê-la como um caso cirúrgico e não sei dizer se houve cuidados psiquiátricos depois. Pelo menos até ela pular do prédio não estava sendo tratada como paciente psiquiátrica, pelo jeito.
O terceiro suicídio que me marcou foi um caso na neurocirurgia de um homem que se deu 5 tiros na cabeça e não morreu.
Ele estava desesperado sem dinheiro e foi até a garagem do prédio com um revólver e deu um tiro num ouvido. A bala entrou e encravou no osso. Ele ficou surdo mas não morreu. Então, deu outro tiro no outro ouvido, de novo, a bala encravou no osso e não morreu. Ficou surdo dos dois ouvidos. E ele não desistiu: deu um tiro na têmpora, a bala cortou o nervo óptico e ele ficou cego de um olho. Deu outro tiro na têmpora, ficou cego do outro olho. Por fim, deu um tiro na boca e a bala passou raspando na base do cérebro e se alojou no cerebelo. Não morreu. E aí entrou minha equipe.
Imaginem o quanto a gente deu de risada por causa da incompetência do suicida que se deu 5 tiros na cabeça e não morreu. (Médicos podem ser cruéis.)
Mas a abordagem desse paciente foi bem diferente: ele realmente queria morrer. Então, tomamos todas as medidas necessárias para que ele não conseguisse se matar enquanto internado sob nossos cuidados. E eu pessoalemente exigi um acompanhamento psiquiátrico para ele, além de janelas trancadas.
Ele acabou morrendo de meningite um bom tempo depois após uma longa internação, por causa dos ferimentos.
Quando eu ouço falar de suicídio eu lembro desses três casos. Claro que já presenciei muitos outros: enforcamentos, quedas de altura, overdose de medicação.
Teve até um que se jogou na frente de um trem.
Quando se chega ao ponto de querer de matar e se escolhe ficar vivo, cada dia é uma reafirmação dessa escolha.
A gente vive só e morre só.