A Doença do Gigio – Otite Interna em Cachorros
Gigio é um pastor alemão mestiço de aproximadamente 12 anos de idade.
Ele começou a ter vômitos e prostração de uma hora para outra sem outras alterações.
Rapidamente evoluiu para dificuldade de se levantar, permanecendo deitado o tempo todo.
Aceitou água e soro caseiro por via oral mas não quis comer.
Em menos de 8 horas de evolução do quadro inicial de vômitos, apresentou instabilidade ao ficar de pé, caindo para o lado esquerdo e andava em círculos para o lado esquerdo também.
Foi levado à clínica veterinária com suspeita de afecção neurológica de cerebelo com diferencial de labirintite.
Rapidamente também desenvolveu nistagmo batendo para a esquerda.
O veterinário fez hipótese diagnostica de Acidente Vascular Cerebral.
Eu não concordei por causa da localização de labirinto à Esquerda e pela evolução de horas, o que sugere infecção e não quadro vascular.
Ao exame, além do nistagmo e instabilidade, apresentava vermelhidão e edema de conduto auditivo externo esquerdo.
Foi medicado com dexametasona, furosemide, flunarizina e uma cefalosporina de quarta geração.
Em menos de 12 horas o nistagmo e os vômitos cessaram.
Voltou a comer no terceiro dia e deambulava com ajuda.
Teve alta para casa no quarto dia e aqui está se alimentando bem, bebendo água e tentando manter sua rotina de me seguir pela casa e ir até o jardim urinar. Teve uma vez diarréia e ainda não evacuou normalmente.
Observamos que a marcha melhorou muito embora ainda tenha tendência de cair para a esquerda.
Os exames laboratoriais mostraram um neutrofilia relativa indicando infecção aguda, o que fecha o diagnóstico de otite interna.
Ainda não sabemos o grau de sequelas que ele terá visto o quadro ainda ser muito recente. Mas a melhora está sendo progressiva e constante.
Agora quero tecer alguns comentários a respeito do atendimento do Gigio pelos veterinários.
Ao verem o cachorro instável se fecharam no diagnóstico genérico de “Problema Neurológico”.
Quem fez o diagnóstico de Otite Interna e instituiu a antibioticoterapia fui eu. A veterinária nunca tinha ouvido falar nisso.
Otite Interna é uma doença relativamente comum em cães que apresentam Otites Externas de repetição (o caso do Gigio).
A veterinária não examinou o cachorro. Eu que o examinei enquanto ele estava deitado na sala de exame e constatei a Otite Externa, que sugere o diagnóstico de Otite Interna por continuidade.
Pessoalmente eu também nunca tinha ouvido falar em Otite Interna em cachorros, mas a clínica é soberana e o quadro neurológico dele indicava comprometimento labiríntico do lado esquerdo.
Como neurologista, eu nunca tinha visto uma labirintite infecciosa bacteriana em gente nesse grau. Mas cheguei a esse diagnóstico no Gigio apenas considerando sintomas e exame físico. Mais tarde pesquisei em textos médicos veterinários e vi que era uma patologia bem descrita. Raro em gente e comum em cachorro.
Fico pensando na quantidade de cães que não foram diagnosticados com essa infecção e tratados ou sacrificados por causa de “derrame”.
Espero que esse relato sirva para alguma coisa.

[...] This post was mentioned on Twitter by DicasBlogger Oficial and Liliana Pellegrini, Pensamento Nebuloso. Pensamento Nebuloso said: RT @lilianap: APRENDÃO! http://migre.me/GWx6 /Dica importante pra quem tem cachorro. [...]
Pingback by Tweets that mention Chá de Hortelã – O Blog da Liliana » A Doença do Gigio – Otite Interna em Cachorros -- Topsy.com — May 21, 2010 @ 11:16 am
Não dá uma raiva quando a pessoa que se diz especialista entende menos da sua especialidade do que o cliente? (Cliente é você, já que o Gigio é o paciente.)
Tomara mesmo, Lil, que muita gente leia teu relato e aprenda como se faz.
Melhoras pro Gigio!
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Liliana reply on May 21st, 2010 11:37 am:
Muito obrigada, Janio!
Beijos!
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Comment by Janio Sarmento — May 21, 2010 @ 11:22 am
oi, Liliana!
Espero que eles pelo menos tenham agradecido pelo diagnóstico, que foi excelente. Teu raciocínio clínico é impecável. Não só pelo raciocínio em si, mas pela agilidade, algo que eles certamente não tiveram.
Teu relato certamente já serviu pra alguma coisa. A Nina, minha shih-tzu de dois anos, já teve tantas otites externas que nem saberia te dizer quantas, sério. A última começou domingo agora e nem levei no veterinário, só vi que ela começou a se coçar muito no lado esquerdo, peguei a pequena (pesa 4 kgs hehe), palpei firme o ouvido e ela deu o chorinho. Pronto, já está no remédio. Mas imagina quantas otites mais ela vai ter e não sei qual é o risco de ela desenvolver um quadro semelhante ao do Gigio. Mas, se desenvolver, nunca vou me esquecer disso.
Obrigada por relatar.
beijos!
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Liliana reply on May 21st, 2010 11:38 am:
Fico feliz, Vivian.
Muito obrigada!
Beijos!
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Comment by Vivian — May 21, 2010 @ 11:27 am
Querida Liliana,
Como sou apenas uma cachorrinha só sei de suas matérias interessantes e de seu Blog pela minha mâe humana e pelos meus tios e padrinhos. Todos nós concordamos que são extremamente úteis e esclarecedoras inclusive sobre o papel ou “papelão” de certos profissionais.
Perdi meu querido irmão por um erro de diagnóstico e pela insistência de se manterem em uma visão fechada sobre um sintoma que não era exclusivo da doença apontada. Com a morte dele muitas inquietações passaram a nos atormentar. A principal foi a eutanásia e a impunidade dos erros veterinários. Com relação à primeira, nas últimas semanas Rede Globo e Gazeta trataram deste tema sem nenhuma reflexão mais séria sobre a necessidade de se consultar outros profissionais e alternativas antes de se decidir pela vida alheia. Ficamos pensando sobre os riscos de “um ser se achar Deus” para decidir quando a vida ou a morte de alguém devem acontecer. Quanto aos erros que na maioria dos casos o proprietário nem fica sabendo e as vezes são incobertos pela sugestão da eutanásia. Seu Blog tem sido nosso alento. Se os veterinários bem formados, que existem, e os deformados, que tem um diploma para terminar sua aprendizagem em nossos animais, aproveitassem seus erros para aprender com certeza salvariam vidas, mas ao contrário, quando deparam com dúvidas ou fatalmente erram, se unem por uma suposta ética profissional e este corporativismo mediocre com certeza abrevia a vida de muitos animais e lesa os consumidores destes serviços.
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Liliana reply on May 21st, 2010 12:41 pm:
Querida Brownie,
Antes eu confiava nos veterinários. E aprendi a duras penas confiar mais em mim quando a Zoe, a fêmea do Tai morreu porque eu segui o que eles disseram.
Depois que ela morreu, nunca mais confiei.
Mas isso não aconteceu apenas com minha Zoe. Meu próprio pai morreu porque o plantonista disse que não era nada e eu era apenas uma estudante de medicina do segundo ano e falava que ele tinha enfartado.
É muito ruim viver num mundo em que eu não posso confiar em ninguém.
Coragem para nós!
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Comment by Brownie — May 21, 2010 @ 11:48 am
Liliana, quem está na area da saúde às vezes tem uma percepção assustadora das coisas. No teu caso era um cão, mas aconteceu com a minha esposa ter um diagnóstico de “ansiedade” quando na verdade era um AVC. Isto aconteceu 3 vezes num período de 6 meses, e o tal médico ainda continua no mesmo hospital atendendo urgências :-/
bjo
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Liliana reply on May 21st, 2010 12:33 pm:
Sinto muito mesmo o que aconteceu com sua esposa. Os médicos e me incluo, não são infalíveis. Porém, errar uma vez acontece, errar duas, três, é inadmissível. Espero que tenham encontrado um médico melhor para ela.
Tudo de bom para vocês,
Liliana
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Comment by JV — May 21, 2010 @ 12:03 pm
Parabenizo sua coragem de falar a verdade, doa a quem doer. Nem sempre os veterinários acertam, precisamos buscar outras opiniões e fazer muitas pesquisas pois muitos “doutores” ficam cristalizados em conceitos teóricos e cases passados na faculdade. O pior é que as vezes eles estavam na cantina jogando truco e só souberam desta matéria pelos xerox que fizeram de cadernos de colegas na véspera da prova.
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Liliana reply on May 21st, 2010 12:43 pm:
Pois é, eu nunca tive tempo de aprender a jogar truco.
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Comment by grace — May 21, 2010 @ 12:03 pm
Assim como todas as profissões, existem bons e maus veterinários. Eu, como estudante de veterinária, fico chocada com o tanto de médicos “humanos” que diagnosticam e medicam seus animais sem o menor embasamento.
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Lex reply on June 13th, 2010 8:28 pm:
Chocado estou eu, que, com 15 anos de Veterinária, ainda tenho que ver colegas clínicos que, na falta do que falar para um cliente, diagnosticam 10 em 10 cachorros, com “problema neurológico”, sem ao menos fazer uma conduta clínica decente…e já vão mandando um cachorro “idoso” para ser sacrificado…pqp…….Pior são os Veterinários que são Médicos Frustrados, gostam de andar de branquinho e pastinha de médico, gostam de serem chamados de “Dotô”, mas não tem qualquer comprometimento com a profissão….
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Comment by Paola — May 29, 2010 @ 9:08 pm
Recado para Liliana do Chá de Hortelã e Paola, estudante de veterinária
Prezadas, existem bons e maus profissionais em todas as áreas, mas nada justifica a impunidade. Se o sujeito é mau profissional deveria mudar de profissão, sempre existe algo em que a pessoa tem maior afinidade. Médicos humanos tem embasamento teórico para salvar vidas, muitos estudos são lamentavelmente feito em animais, portanto a afirmação sem o menor embasamento, parece bem inadequada. Agora veterinários sem embasamento infelizmente tem sido uma constante, eu fico abismado como veterinários tem manchado a reputação de profissionais sérios. Alguns veterinários são uma vergonha sim. Paola como estudante deve estudar, pesquisar, estagiar em lugares sérios, colocar em dúvida dogmas e não acreditar em tudo que aprende na teoria, pois “quem sabem faz, quem não sabe ensina”. Tenho certeza que será uma profissional de verdade. Veterinários bons existem e muitos, mas estes não estão dando aulinhas nestas inúmeras faculdades de consórcio de diploma que formam de veterinários que vão concorrer igualmente com colegas competentes oriundos de instituições ilibadas, com professores pesquisadores e práticos. Essa disputa resulta em mortes desnecessárias de animais e descrédito profissional. Dra. Liliana, médica percebeu algo que um veterinário deveria, pelo apontado embasamento, ter percebido. Sorte do cachorro. Azar dos veterinários, ela publicou. Ratificou a opinião de muitos de que alguns veterináriois, felizmente não todos, deveriam assumir suas posturas circenses, marqueteiras e carnavalescas como profissão e não transmitir suas frustraçôes na forma de diagnósticos e atendimentos mau feitos. Abraços para ambas,
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Liliana reply on June 4th, 2010 5:57 pm:
Perfeito, João. Obrigada.
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Comment by joão — June 4, 2010 @ 5:26 pm
Liliana…..venho acompanhando seu blog há pouco tempo, mas suficiente para perceber que vc é uma pessoa firme em suas conclusões e implacável com seus desafetos…..admiro sua postura, mas como bom Libriano, prefiro ser mais “light”. Sou Médico Veterinário há 20 anos e posso dizer que já vi muita coisa na profissão……evoluímos muito nesse periodo, mas ainda estamos muito carentes em estrutura e condições de trabalho….Não quero justificar nada, muito menos erros médicos, mas a medicina humana tem planos de saúde, tem RM no SUS e muitos outros equipamentos sofisticados a disposição. (isso dá condições de um diagnóstico muito mais eficaz e com isso o aprimoramento do profissional, concorda ?) Minha geração foi uma das primeiras a ver na graduação um aparelho de Ultrassom, na época um exame para poucos….pra vc ter uma idéia, uma TC é recente na medicina veterinária e poucos podem pagar um exame desses. O que eu quero dizer com isso é que a defasagem em relação a medicina humana é muito grande e alguns profissionais acabam adquirindo o mau hábito, forçados muitas vezes pela pressão do proprietário, a “dar” um diagnóstico genérico, como vc mesma citou como “problema neurológico” ou ficar entre 2 ou 3 diagnósticos diferenciais e optar por um deles. Usa-se muito o tal “diagnóstico terapêutico). Não temos SUS para animais, todos os exames são pagos e ainda não cabem no bolso da grande maioria. Não estou me referindo especificamente ao problema do seu cão pelo fato de ser uma doença comum nos cães e não requerer exames sofisticados para o diagnóstico, um profissional com um pouco de experiência fecharia pelos sinais clinicos e quando muito com uma otoscopia (animal sedado) e RX de crânio para avaliar orelha interna e bulas timpânicas. Mas enfim, a realidade das duas profissões são bem diferentes o que não justifica o despreparo de alguns colegas.
Um grande abraço !
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Comment by Douglas — January 30, 2011 @ 12:07 am