Querido Diário
Finalmente o veterinário veio ver o Tai ontem e ele teve que me acordar com um telefonema do jardim porque eu estava morta desmaiada na cama.
Levantei correndo com aquela cara de quem não dorme bem há umas duas semanas que é exatamente o que acontece comigo.
O veterinário ficou muito preocupado. Não com o cachorro. Preocupado comigo.
Ele examinou o Tai e achou que ele está em más condições. Não volta a andar por causa da coluna, o coração já está se esforçando muito e começou a ter escaras de tanto ficar parado na mesma posição.
Sugeriu colocar para dormir, que é eufemismo de matar com injeção.
- Você já pensou nessa possibilidade? – perguntou ele.
-Já. Mas não gostaria de tomar esse tipo de decisão só porque estou cansada.
O Tai passa bem o dia na varanda vendo o movimento da casa, come e bebe bem, abana o rabinho de felicidade se a gente conversa com ele. Está lúcido. O problemas são as noites que ele não dorme e fica chorando me chamando. Grita mesmo. E eu não durmo.
Decidimos então usar um sedativo para ele dormir a noite toda e eu poder descansar também.
O veterinário foi tão gentil que ele mesmo foi até a cidade e comprou toda a medicação que o Tai precisava só para eu não ter que sair e poder descansar. Ele também avisou uma amiga que eu estava mal e ela veio me fazer companhia e conversar a respeito do assunto.
O Tai dormiu embalado com o som de nossas vozes porque ele não quer que eu fique longe dele nem por um segundo.
Respeitando a máxima que não se acorda paciente para dar remédio para dormir, não dei o tal sedativo ontem. Ele me acordou às 4 da manhã e foi até às 5 e meia até sossegar e eu deixá-lo na varanda sem a fralda, sem a toalha, com a barriga direto no cimento gelado que era o que ele queria. Está muito calor aqui.
Voltei a dormir até às 7 quando ouvi ele chorar mas não levantei da cama e embalei no sono até 11.
Hoje me sinto um pouco mais descansada mas não sei o que é uma noite inteira de sono.
Agora ele já comeu, bebeu, tomou sol, fez cocô, e só então eu fui tomar meu café da manhã.
Ontem comprei pela internet um colchão de água para evitar escaras. Espero que ele goste.
Eu não acho que o Tai está sofrendo. Por enquanto a única sofrendo aqui sou eu.
Estou acompanhando o final de um ser que eu amo muito.
O reflexo disso na minha saúde é visível.
Aparentemente, o Tai está alheio à gravidade da situação dele. E toda noite, antes de eu entrar na casa eu me despeço dele dando a mesma ordem: Tai, cuida da sua comidinha e não deixa o Gato Branco roubar nada!
Ele abana o rabo.

Eu li em algum lugar que os animais, ao contrário do ser humano, são imortais, pois não tem consciência da finitude de sua existência.
Responder
Liliana reply on October 25th, 2009 1:19 pm:
Obrigada, querido amigo.
Responder
Comment by marcus — October 25, 2009 @ 1:13 pm
Lili,
você é uma mamãe e tanto! Beijinho no focinho do Tai.
PS: ontem vi as fotos da sua filharada em cima da cama (no flickr). Igualzinho Donnie por aqui que agora só quer dormir comigo…
Responder
Comment by Raquel — October 25, 2009 @ 2:15 pm
Você é maravilhosa com ele, eles ficam tão felizes em ouvir nossa voz e ter atenção….lamento muito por você, sei o quanto é dolorido ver um companheirinho de tantos anos sofrendo e se indo….desejo força pra você, e menos dor para o Tai!
abraços
Responder
Comment by Gambita — October 26, 2009 @ 4:09 pm
Oi Liliane, eu já tive que sacrificar um cachorro e posso te dizer que foi a coisa mais difícil que eu já fiz na vida. Não consegui ver meu amor sofrer (ele teve um derrame e ficou 6 horas andando pelo quarto, repetindo suas ações, sem parar). Me despedi dele e meu marido ficou ao seu lado. Chorei 2 dias seguidos, não fui nem trabalhar, mas ao mesmo tempo sabia que era a sua hora. Um mês depois, uma praga de 60 dias, igualzinho ao outro, estava aqui para nos distrair e dividir nosso amor. Mas o amor pelo outro continua forte e as saudades deixa na gente um vazio que aos poucos vai sendo substituído por um sentimento bom, de ter tido um cachorro muito especial, que acupou um espaço nas nossas vidas. Um beijo e boa sorte.
Responder
Comment by Maria Cristina Del Nero — October 27, 2009 @ 9:40 am