Desligada
Tenho uma amiga aqui em São Francisco que tem muitas coisas em comum comigo: é divorciada, mora sozinha num sítio no mato com cachorros, tem a minha idade, tem um jipe Willis preto que é uma gracinha, enfim, a gente tem muita coisa em comum e eu gosto muito dela.
Como estamos na mesma situação, sozinhas, sem família, no fim uma conta com a outra.
Pois eu estava tentando falar com ela há várias semanas. Um mês para ser exata. E o celular só caia na caixa postal.
No começo, achei que era por causa da recepção do celular no sítio dela que é horrível. É superdifícil fazer ligações de lá e não tem telefone fixo.
Continuei insistindo e sempre a tal caixa postal. Daí achei que ela tinha ido viajar, visitar os parentes na Europa ou coisa assim.
Mais semanas se passaram e nada.
Ontem decidi investigar o que tinha acontecido porque já estava imaginando que minha amiga tivesse morrido ou algo trágico. Fiquei realmente preocupada porque nem sinal dela pela cidade também.
Quando subo a estradinha da casa dela a encontro conversando com o veterinário que tinha acabado de sair aqui de casa trazendo a Manilha operada.
Ela visivelmente estava muito bem. E foi um alívio.
Mas o que diabos tinha acontecido?
Eu fui logo falando que tentei telefonar para ela antes de ir lá, porque não costumo chegar em nenhum lugar de surpresa. No que ela respondeu: eu desliguei meus telefones.
Simplesmente ela se encheu.
Ela tem parentes e amigas em São Paulo e por todo o Brasil que ultrapassaram o limite e ela resolveu dar um basta, tirar um tempo para ela, reenquadrar todas essas pessoas. E não queria falar com mais ninguém.
Entendo perfeitamente o que ela sentiu pois colocar limites é uma ação constante e as pessoas estão sempre tentando ultrapassar seus limites, testando-os.
Há um tempo atrás, eu me vi numa situação parecida. Ficava estressada por causa dos outros e acabava tendo que tomar calmantes. Isso foi indo até o momento que eu me toquei: “eu não vou tomar calmante por SUA causa”. E fortaleci meus limites de novo. Porque no fim, a culpa de ultrapassarem nossos limites é só nossa.
Porém, há situações nas quais estamos enfraquecidos demais para manter os limites e é exatamente nessas horas que as pessoas que nos cercam deveriam respeitá-los. E há os que percebem nossa fragilidade e respeitam nosso limite e há os que se aproveitam de nossa fragilidade para abusar e tentar ganhar algo em cima de nós e até tentar nos manter na situação frágil.
Eu aprendi a duras penas a eliminar aqueles que não respeitam meus momentos de fragilidade e a conviver com pessoas que naturalmente me respeitam.
Quem tem a necessidade de crescer em cima das outras pessoas, principalmente quando essas estão precisando de apoio, ou seja, quem só consegue se afirmar colocando o outro para baixo não é alguém que mereça conviver comigo nem com ninguém.
Minha amiga teve que tomar uma atitude radical para se proteger e percebendo a gravidade de tal atitude, repensou todos esses relacionamentos dos quais ela quis fugir.
Por isso, meus queridos, sempre que possível coloquem seus limites, digam como se sentem, dêem feedback para as ações dos outros e se mesmo assim, se colocando não adiantar, saiam fora que não vale a pena.

Fiz algo parecido. Tanto o telefone fixo quanto o celular ficam no modo silencioso. Quem quiser que deixe um recado na secretária eletrônica
Beijos
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Comment by Juliana Sardinha — July 19, 2009 @ 11:43 pm