Lembranças Esparsas no Café da Manhã

Liliana | Admirável Mundo Velho, Viagens | Tuesday, February 24th, 2009

O computador avisa: it’s nine o’clock. E eu me lembro da música do Genesis: it’s one o’clock and time for lunch… 

It’s nine o’clock and time for breakfast.

E estou eu, a mesa posta com minha xícara de café com leite, cachorros deitados a minha volta, computador do lado da xícara e uma obrigação horrível de escrever algo significativo no blog.

Como assim?

Hoje é feriado, dia de descanso. Não tenho que escrever nada de importante. 

Ontem eu também descansei. Vi dois filmes: Slumdog Millionaire e Rachel Getting Married.

Não gostei de Slumdog. De coisa feia basta os problemas do dia a dia. Eu fiquei mais de um mês na Índia passeando há muitos anos atrás e estou por aqui de Índia. 

Fui para lá toda animada esperando uma experiência mística. Tinha estudado toda a mitologia, lido poemas, a história, mas ver um povo vivendo a mitologia como se fosse real deu um resultado terrível. Um país sujo e feio e atrasado.

Eu participei de rituais indianos em templos sujos e escuros com gente adorando pedras e pintando nossos rostos de vermelho.

Eu vi cadáveres de párias sendo comidos por cachorros às margens do Rio Ganges em Varanasi.

Eu conheci o interior da Índia que os turistas não costumam conhecer. Fomos de ônibus e trem atravessando o país até a fronteira com o Nepal.

A Índia tem cores salpicadas aqui e alí. Pontos bonitos escassos perdidos no meio da sujeira e de fezes e outras secreções humanas.

Eles usam vassouras de piaçava sem cabo. Então, ficam de cócoras varrendo o chão que nunca fica limpo, que nunca fica sem poeira, que nunca muda daquela cor de terra esmaecida, cor de sujeira.

A única coisa branca realmente branca da Índia é o Taj Mahal. O resto é sujo. Por isso que faz tanto sucesso.

Se eu vi coisas bonitas? Claro que vi. Mas eu não sou hipócrita de destacar o bonito do contexto geral. E o geral é triste.

Eu já fui em favelas brasileiras fazendo trabalho médico e nada se compara à Índia. O nosso pior está a anos-luz de diferença deles.

Minha experiência mística na Índia durou exatamente o tempo de chegar e olhar em volta.

Fui em templos budistas importantes também. E tive medo que roubassem meus sapatos.

Fui em mesquitas e tive que me cobrir com panos imundos porque estava de camiseta de mangas curtas.

Indús, muçulmanos, budistas, conheci suas culturas e seus lugares e todos me passaram a impressão de estarem fora do tempo. Ultrapassados. Nisso não tenho preconceito: meu julgamento foi negativo igualmente para todos.

Slumdog Millionaire mostra a Índia. É isso aí. E no filme ainda nem mostra tudo. Tem coisa pior lá. Acreditem.

Já Rachel Getting Married lembra Roberto Altman, quem o diretor do filme agradece nos créditos finais. Não é um Altman. Mas é um bom filme. E coincidentemente mostra um casamento no estilo indiano em plenos EUA numa família de classe média alta que não tem nada de indiana mas resolve fazer um casamento no tema “Índia” pegando só o que tem de bonito da cultura: as roupas, a decoração, as bijuterias… Fica lindo. 

Eu tenho um sari maravilhoso que eu trouxe.

Na Índia eu conheci um casal de lá em lua de mel que viajou conosco de ônibus por um pedaço do caminho. Ela ainda portava aqueles desenhos de henna nas mãos e nos pés. Muito bonito. Mas eles contaram coisas como tiveram sorte de se gostarem e poderem se casar. Porque não era garantia de se casar com quem se ama lá. E tinha o problema do dote. Sim, dote. Ele pode pagar o dote e estava muito feliz. Contou que demorou anos para juntar o dinheiro do dote que o noivo devia pagar para a família da noiva. Eles se achavam um casal moderno porque o casamento não tinha sido arrumado. “Vocês podem casar com quem vocês quiserem?” Imaginem minha cara ao responder que sim.

Mas por que essa antipatia tão grande, Liliana?

Eu tenho uma visão do mundo como uma coisa só. O indivíduo aqui no Brasil é igual o indivíduo do outro lado do mundo. A informação já se espalhou. Somos uma coisa só: a raça humana. Na História da Humanidade já vimos coisas que funcionaram e coisa que não funcionaram. Então não vejo lógica de se manter hábitos que já se mostraram ineficazes e nocivos. A Índia como um todo está ultrapassada e insiste em viver segundo mitologias de milhares de anos atrás, na pior das hipóteses, de séculos atrás.

É… Mas estou querendo muito.

Eles que são indianos que se entendam.

Mas não esperem que eu faça apologia da ignorância.

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  • 18 Comments »

    1. Bom, vc acabou escrevendo algo significativo no blog, rs. Beijos!

      Responder

      Comment by Dagwood — February 24, 2009 @ 12:20 pm

    2. Liliana,
      pois eu já almocei e ainda não escrevi nada no blog! e o mais engraçado: ontem falava sobre a Índia (que nunca me atraiu e que não conheço pessoalmente) com uma amiga e imaginando como seria a Índia hoje caso os ingleses não houvesse passado por lá.

      Atualmente é comum a apologia da ignorância disfarçada de “vamos respeitar a diversidade”, “vamos respeitar as culturas diferentes” e por aí vai…

      beijocas

      Responder

      Comment by Raquel — February 24, 2009 @ 2:36 pm

    3. Eu sempre me pergunto se cultuar (e permitir) povos vivendo no atraso é válido, humano, saudável.
      Mas raramente externo estas questões porque, na maioria das vezes, quando faço isso, acontece o que a @Raquel falou: críticas seguidas das frases “diversidade”, “diferenças”, “cultura”…
      Talvez eu esteja errado e elas certas; ou talvez seja o inverso. Sei apenas que, mesmo tendo um conhecimento superficial (muito pelo viés místico) do que é a Índia, detalhes expostos agora pela insuportável novela da globo me deixaram de “mal” com essa cultura da idade da pedra. Casamento arranjado, dotes, mulheres sem voz e vez, discriminação social radical, imundície…
      E olha que Gloria Perez maquia a realidade (não vi nenhum cadáver boiando no Ganges).
      E já estou por aqui com papagaios que vivem repetindo nas ruas “atchátchátchá” ou coisa parecida. E, prá completar, o filme levou o Oscar!

      Olhaí, o que cê escreveu foi tão significativo que meu comentário quase vira um post! ;)

      Grande abraço!!

      Responder

      Comment by Bruno Alves — February 25, 2009 @ 12:07 pm

    4. “Mas não esperem que eu faça apologia da ignorância”, perfeito.
      Abraços.

      Responder

      Comment by Amanda — February 25, 2009 @ 2:06 pm

    5. [...] a Índia é uma bosta, mas Bangladesh é pior. Essa aliás é a única fonte de alegria da maior parte da população da [...]

      Pingback by Blog do Cardoso » Blog Archive » Bangladesh não tem conserto — March 2, 2009 @ 1:50 pm

    6. Engraçado. Fiquei aliviado com seu post. Porque não vi tanta coisa no filme para ser tão premiado como foi. Acho que a premiação foi mais de protesto por ter tanto filme ruim concorrendo. The reader merecia muito mais…

      Responder

      Comment by Luiz Aquino — March 2, 2009 @ 3:10 pm

    7. Tenho um amigo jornalista que passou uns tempos por lá, nos anos setenta. Era isso ai que descreves elevado ao cubo.
      Sobre o filme, acho que o Marco do Bitaites disse bem:
      http://bitaites.org/ilustracaodesenho/os-fas-de-concursos-vao-adorar

      Responder

      Comment by Sergio Grigoletto — March 2, 2009 @ 4:38 pm

    8. Meu comentário vai parecer deveras o de um politicamente correto mesquinho, talvez até seja… mas vamos la…

      Eu tenho uma visão do mundo como uma coisa só. O indivíduo aqui no Brasil é igual o indivíduo do outro lado do mundo. A informação já se espalhou. Somos uma coisa só: a raça humana. Na História da Humanidade já vimos coisas que funcionaram e coisa que não funcionaram. Então não vejo lógica de se manter hábitos que já se mostraram ineficazes e nocivos. A Índia como um todo está ultrapassada e insiste em viver segundo mitologias de milhares de anos atrás, na pior das hipóteses, de séculos atrás.

      E quem sou eu, você ou o Mário pra julgar certas coisas, habitos, para falar o que “funciona ou não” ?

      Imagine um inglês no século XIX chegando na India, olha de relance e pensa “putaquepariu! que povo atrasado! cultuam vários deuses! Catzo, isso é coisa da idade da pedra! Por que não cultuam só um Deus como nós ? Muito mais pratico! Que inferno, que atraso! Vou fazer um favor a vocês, vou ensinar vocês a serem gente, a serem desenvolvidos, fornecer a vocês meus produtos! Que sorte sua heim!”

      Sua visão não me parece muito diferente dessa ultima…

      De fato, na historia da humanidade já vimos coisas que funcionam e outras que não. Mas falar que a India esta ultrapassada é ignorância, a mesma que você tanto critica, a mesma que você diz não fazer apologia. Você faz um balanço maniqueista, diz que há alguns pontos positivos dentre muitos negativos. Em certos trechos fala como se o Brasil em geral estivesse melhor que a India.

      Fiz uma viagem de barco de Belem para uma cidadezinha na Ilha de Marajó, cansativa pacas por sinal, não ostentava nada, estava vestido do mesmo modo como eu me visto para ir a padaria. Dentro do barco, roubaram meu tênis, na cidadezinha disseram na maior serenidade que era normal.

      Entra em qualquer site de algum jornal estrangeiro, The Guardian, Le Monde, New York Times… Você não encontra uma noticia sequer do tipo:

      “Killer left victim’s body in bathroom, showered, then went out to party”

      Adivinha onde ocorreu a noticia acima…

      Do ponto de vista militar, eles “estão anos-luz” a nossa frente, o programa espacial idem. Nem colocar um satélite em orbita nós conseguimos, unico país no BRIC

      BollyWood que apesar de ser representada em grande parte das vezes da forma mais caricata possivel, é beeeemmmm mais desenvolvida que nossa indústria.

      O indivíduo aqui no Brasil é igual o indivíduo do outro lado do mundo.

      Será mesmo que a média dos brasileiros é melhor que a média dos indianos, do ponto de vista cultural ? Se eles são muito retrógrados, conservadores em muitos aspectos, talvez nós sejamos muito liberais. Gente que se diz séria considera o Funk carioca como manifestação de cultura, o Carnaval nunca me agradou muito… E Paraisopolis, São Paulo, quando teve aquele quebra-quebra, que por sinal ja é uma questão cultural… na India teria tamanha macaquice? Não seriam os brasileiros os indianos?

      Um país sujo e feio e atrasado

      Uma de suas primeiras colocações sobre a Índia, ja ouvi isso em algum lugar…

      Responder

      Comment by Lucas Pinheiros — March 2, 2009 @ 10:49 pm

    9. Muito bom o post. Como você aguentou um mês na Índia? Eu passei 3 dias na parte pobre de Dubai (em resumo = Índia) e já não aguentava mais. Tem muito atraso, sujeira e maus odores envolvendo os indianos. Agora me explica: como eles estão se “internacionalizando” mais que os brasileiros? Ser passado pra trás pela Índia é f…

      Responder

      Comment by bruno imbrizi — March 3, 2009 @ 3:52 am

    10. Falou tudo (até me inspirou p escrever um post…)

      Responder

      Comment by Séfora — March 4, 2009 @ 1:26 am

    11. Acredito que alguns lugares no mundo temos que conhecer para tirar a “cisma”. E tenho essa cisma pela Europa. Agora, gostei muito de ler seu ponto de vista, porque eu nunca tive o menor pingo de vontade de conhecer o oriente, nem índia, nem china nem japão. Se me oferecessem viagem de graça pra lá, negaria. Só reforçou minha opinião sobre esse lugar esquisito.

      Ah propósito da Índia, acho que se é para viajar, é para ver e conhecer lugares de alguma forma grandiosos. Se for para ver miséria, o Brasil tem diversos exemplos.

      Responder

      Comment by Ronaud Pereira — March 8, 2009 @ 12:41 am

    12. “A Índia como um todo está ultrapassada e insiste em viver segundo mitologias de milhares de anos atrás, na pior das hipóteses, de séculos atrás.”

      cristianismo é novíssimo.

      Responder

      Comment by felipe — March 13, 2009 @ 6:33 pm

    13. Seu texto é exemplar para entendermos o significado de “etnocentrismo”.

      Responder

      Liliana reply on March 25th, 2009 10:19 am:

      Eu tenho todo o direito de não gostar de alguma coisa.

      Responder

      Lucas Pinheiros reply on April 8th, 2009 1:45 am:

      O que não muda o fato de o texto mostrar uma visão etnocêntrica do mundo.

      :)

      Responder

      Comment by Michel F — March 25, 2009 @ 9:55 am

    14. Você foi muito corajosa, falando algo que você viu, sem o verniz da hipocrisia dos espiritualizados que acham a miséria linda, do tipo dos intelectualóides que cultuam a cultura (?) das favelas brasileiras. A Índia de hoje é uma potência, a nona economia do planeta e que cresce a absurdos 9% ao ano (pau-a-pau c/ a China) mas nem por isso as coisas melhoraram por lá, as desiguldades sociais só tem aumentado e hoje 500 milhões de indianos vivem abaixo da linha de pobreza.

      Responder

      Comment by Antonio Fernandes — April 23, 2009 @ 10:28 pm

    15. Eu morei dois anos na Índia, gostei do país e moraria lá novamente sem problema algum. Concordo que existe tudo de ruim que você falou por lá, por todos os cantos, mas discordo que esta seja a “verdadeira” Índia.

      É muito cômodo rotular um país e sua cultura. Facilita nossa aceitação e entendimento das coisas. Nosso cérebro é assim mesmo, precisa entender tudo e, quando não consegue, simplifica.

      Demorei um mês para começar a entender a Índia. Talvez por isto você tenha odiado o país. Talvez por ser mulher, é muito mais difícil para mulheres lidar com aquele país no dia-a-dia. Mas especulo e digresso.

      O fato é que Slumdug, para voltar ao começo do seu texto, é um filme muito parcial. Tem coisa pior lá? Claro que tem, mas tem coisas muito melhores também. Já escrevi sobre isto aqui: http://laedevolta.com.br/blog/2009/02/23/e-slumdog-millionaire-leveu-o-oscar/

      Sobre o outro extremo, como no outro filme que mencionou, é fácil vê-lo também. Cansei de ver europeus e americanos que compraram pacotes de viagem em seus países de origem e saem do aeroporto em um carro luxuoso para um hotel ainda mais. Como ver miséria num país se hospedando em alguns dos hotéis mais caros e luxuosos do mundo?

      Também já falei antes, quem não conhece a Índia, costuma apenas ver os seus extremos: http://laedevolta.com.br/blog/2009/10/22/quem-nao-conhece-a-india-so-ve-seus-extremos/

      Abraços,
      Ricardo

      Responder

      Comment by Ricardo — November 25, 2009 @ 6:29 pm

    16. Sim.. deveras.. rsrs
      O texto foi muito bem escrito… bem humorado apesar de tudo.
      Mas sim .. deveras.. não é um post que faz incentivo turístico… e .. o cuidado que nós devemos ter ao comentar.. é que um post.. é um desabafo.. uma elocubração.. apenas um pensamento.
      Não é uma tese nem monografia.. nem nada que exija comprometimento… sejamos livres para ler então.. e entedermos a liberdade da autora.. assim como essa.. entenderá a liberdade dos comentários.
      Viva a democracia da internet.. que não tem as barreiras das castas de lá.. nem das classes daqui.
      Valew.

      Responder

      Comment by Antonio Mano — November 25, 2009 @ 11:32 pm

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