Blogagem Coletiva: Dia Mundial da Luta Contra A AIDS

Minha mãe morreu de AIDS em dezembro de 1993.

Ela escondeu de minha irmã e de mim o máximo que pode até que eu fiz o diagnóstico por minha conta e a confrontei. Ela não pode negar. Isso foi no final dos anos oitenta quando o preconceito e a AIDS eram um assunto muito mais tabu que hoje.

Minha mãe achava que íamos abandoná-la a própria sorte pela vergonha da doença. Claro que não abandonamos. E mantivemos o seu segredo até ela morrer. Até hoje minha irmã diz que a mãe dela morreu de leucemia. Não sei porque.

Minha mãe pegou AIDS do segundo marido, que morreu bem antes dela da doença. E na época foi difícil diagnosticá-lo pois ele não fazia parte do grupo de risco de homossexuais ou drogados do início dos anos oitenta. Ele por sua vez adquiriu AIDS de alguma prostituta africana pois ele era geólogo e passava longos períodos na África a trabalho nas minerações.

Eu estava no quarto ano de Medicina em 1984 num estágio no Emilio Ribas quando nossa instrutora nos levou para ver o paciente zero de AIDS do Brasil.

Ele ficava num quarto isolado de tudo e de todos e o víamos por uma janelinha, de longe. A instrutora apontava: aquele é nosso primeiro paciente de AIDS! Todos tivemos medo.

Eu acompanhei minha mãe HIV positiva por anos tomando o coquetel da época e tentando ter uma vida normal. Garanto que não dá para ter uma vida normal.

Eu vi médicos e dentistas a maltratarem por preconceito e medo.

Eu a vi tomando mil cuidados para não nos contaminar com nenhuma secreção. Eu vi um dos maiores especialistas da área dizer para ela não mais manter relações sexuais com ninguém.

Depois eu vi a AIDS se instalar. As infecções oportunistas. A demência que veio (ainda bem pois ela não percebeu que a morte estava próxima). A cirrose. O câncer.

Então veio o fim.

Foram anos de agonia e tristeza esperando um fim implacável.

Depois que ela morreu, ainda permaneceu o medo de termos nos contaminado por termos tido contato tão próximo com suas secreções.

Lidar com urina, fezes, sangue, lágrimas, suor, saliva, menstruação, secreções vaginais, tudo dela nos dava medo.

E ao mesmo tempo, a abraçávamos e beijávamos e cuidávamos e tudo o mais.

Eu não peguei AIDS da minha mãe não.

Mas eu fiquei traumatizada.

Eu ando com camisinha na bolsa. Eu tenho medo de beijar na boca.

Eu acho um absurdo falarem que ter AIDS é algo “manejável”, que é “só tomar o coquetel”. Não é. Eu vi. Eu sei.

É terrível.

Eu também acho um absurdo mulheres HIV positivo terem filhos e exporem essas crianças a essa doença.

Quem já é portador do HIV ou paciente de AIDS tem toda minha compreensão e simpatia pois sei que o que enfrentam não é brincadeira. É uma luta viver cada dia. São pessoas de muito valor e merecem toda a consideração como qualquer outro paciente de doença crônica séria deve ter.

E quem não tem o HIV, não queira ter. Faça todo o possível para evitá-lo. Existem tantas doenças horríveis que não podemos evitar e essa é uma que até podemos evitar salvo alguma contaminação acidental.

Por favor, não pense que AIDS é um passeio no parque apesar de tanta gente querer fazer parecer que é.

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  • 17 Comments »

    1. “AIDS é algo “manejável”, que é “só tomar o coquetel”. Não é. Eu vi. Eu sei.

      É terrível.”

      Eu também vi , é terrível, meu pai faleceu no mesmo ano , 1993 e lendo seu texto voltei no tempo, com a diferença que era só eu cuidando dele e eu tinha 15 anos … espero que um dia consigamos dar a volta por cima dessa doença …. Otimo post e muita saude .

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      Comment by mj-coffeeholick — December 1, 2008 @ 6:28 pm

    2. Oi Liliana, muito bom o seu relato. Estou aqui passeando pelos posts da blogagem sobre a Aids, primeiro pra ver como as pessoas estão se manifestando, e também pra divulgar um trabalho que fiz com meu coletivo, a Garapa. A gente fez uma série de pílulas em vídeo com depoimentos de portadores do HIV. Aprendi muito fazendo as entrevistas, e acho que é legal passar adiante.

      Bom, veja lá…
      http://www.garapa.org/2008/12/dia-mundial-de-luta-contra-a-aids/

      Beijos.

      Responder

      Comment by Paulo — December 1, 2008 @ 8:55 pm

    3. [...] Chá de Hortelã [...]

      Pingback by Dia Mundial Contra Aids - Resultado da Blogagem Coletiva » Ladybug Brasil - Sobrevôos, descobertas, achados. — December 1, 2008 @ 9:05 pm

    4. Acho que é a opinião mais sincera e objetiva que já vi sobre o assunto.

      Responder

      Comment by Nando — December 1, 2008 @ 10:09 pm

    5. Eu nunca tive contato (ao menos não que eu saiba) com alguém que tivesse a doença, mas ver relatos como o seu que são claros em dizer que nunca faltou carinho, atenção e trato para com os entes é de fazer pensar muito. E sem dúvidas mostra uma força incrível que você tem, para lidar com a coisa da forma que lidou. Eu te parabenizo por isso e espero que as pessoas enfim acordem e vejam que sim, é um problema seríssimo e que não, ainda não tem cura. O mais fácil definitivamente é evitar.

      Responder

      Comment by Rafael R — December 1, 2008 @ 10:47 pm

    6. [...] qualquer outra coisa a qual ela se proponha a fazer. Ela fez o relato da história da mãe dela, que faleceu com a doença. Do outro lado, a Cris fez um relato bem foda sobre a história do seu pai, que também [...]

      Pingback by Dia Mundial contra a Aids: Dois relatos que valem a pena! // justplay.info — December 1, 2008 @ 11:17 pm

    7. Tu, que és médica, deveria saber que é impossível pegar aids com beijo na boca, salvo se as duas bocas estiverem muito cortadas, e mesmo nessa situação, é algo praticamente impossível, uma chance em 10 mil, pra mais.

      Responder

      Liliana reply on December 2nd, 2008 12:05 pm:

      Impossível = chance zero . Que é diferente de 1:10.000.

      Responder

      Carlos reply on December 3rd, 2008 8:39 am:

      1 para 10 mil se as duas bocas (vias de contato) estiverem significativamente cortadas, ou seja, praticamente sangrando, o que é muito dificil, bastando evitar os beijos quando assim estão.

      Porém, se assim não tiver, a chance é ZERO.

      Carlos

      Responder

      Comment by Carlos — December 2, 2008 @ 9:02 am

    8. [...] Leia mais direto na fonte: liliana.com.br [...]

      Pingback by medicina » Blog Archive » Blogagem Coletiva: Dia Mundial da Luta Contra A AIDS — December 3, 2008 @ 2:57 am

    9. Excelente post,realmente tratou com bastante sinceridade sobre o assunto,mas quanto as mães que são HIV positivo,existe uma espécie de tratamento feito creio que durante a gravidez pra elas não passarem a doença para a criança,o que possibilita que elas possam ter filhos.

      Responder

      Comment by Vivian Martins — December 3, 2008 @ 9:01 pm

    10. Liliana, seu texto é de utilidade pública. Acho que pessoas que tenham convivido com a doença de perto como você deveriam ser utilizadas pelas campanhas do governo dizendo o que viram e viveram. As campanhas parecem brincar de alertar, não sei.

      Fica meu abraço, seu blog é muito bom.

      Responder

      Comment by Vanessa — December 4, 2008 @ 8:46 pm

    11. olha, eu concordo que existe uma banalização da AIDS e de tudo que a envolve.. mas acho que hoje se é possivel SIM viver relativamente bem.. Tenho casos na familia e ela vive MTO bem obrigada! Trabalha, estuda, faz as unhas, é amada por todos e tem uma vida normal. Claro que existe um cuidado quanto as doenças, ou cortes e o coquetel..

      O que mais dói é a ignorancia das pessoas que ainda são mto preconceituosas e que evitam ou destratam os que tem AIDS.

      Enfim,
      Um abraço.

      Responder

      Comment by Fernanda — December 5, 2008 @ 10:24 am

    12. Ótimo texto. Virei fã e assinei o feed!

      Responder

      Comment by Ivan — December 5, 2008 @ 1:15 pm

    13. [...] pacientes e profissionais de saúde – Plugbr O portador da lesão medular e o sexo – A vida Blogagem Coletiva: Dia Mundial da Luta Contra A AIDS – Chá de Hortelã Grávidas doem o seu xixi! – [...]

      Pingback by Vários assuntos para um dia de domingo | 30 & Alguns — December 7, 2008 @ 10:52 am

    14. Acho que o relato existe uma verdade incrível e que por um lado me assusta. Pois descobri que tenho hiv esta semana. Eu e meu namorado.
      Só acho que existe um pouco de preconceito em seu relato, mesmo você vivendo de perto esta situação. Os tempos eram outros, hoje os coqueteis são mais avançados. E tudo depende muito. Uma pessoa com HIV tem que fazer exercícios, se alimentar bem, forçar algumas situações para o seu corpo não ficar fraco. Espero que a humanidade ainda entenda como a vida é, e que isso pode acontecer com qualquer um. Pode ser o HIV, Câncer, Leucemia… Enfim. Estamos entrando numa era que a humanidade está ficando doente.
      Força para todos serem felizes e vencerem os preconceitos!!!!!!

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      Comment by Joao — May 7, 2009 @ 10:39 pm

    15. Olá, como vai?

      Antes de tudo, parabéns pela iniciativa de utilizar seu blog para unir pessoas em torno de alguma causa. Assim como você, acreditamos no potencial da blogagem coletiva como formato possível de união e mudança na sociedade.

      Criamos recentemente o blogagemcoletiva.org (www.blogagemcoletiva.org). Trata-se de um agregador de conteúdo voltado à divulgação de mobilizações coletivas realizadas via internet.

      A idéia é tanto auxiliar o blogueiro a potencializar suas manifestações como também divulgar os resultados obtidos através de sua iniciativa. O funcionamento é semelhante ao de indexadores como Uêba, Ocioso e Linklog. Tudo pode ser feito sem a necessidade de cadastro. O blogueiro nos envia sua manifestação por meio do link “envie uma blogagem” presente no topo da página e, se tudo estiver dentro das nossas políticas de publicação, ela será divulgada no site.

      Ah, e para incentivar a adesão da blogosfera nós criamos um ranking, onde os visitantes podem declarar por meio do voto sua participação ou apoio à causa. A manifestação mais votada a cada semana ganhará destaque especial no site.

      Podem ser blogagens coletivas, memês, petições, campanhas, protestos e toda e qualquer manifestação válida que busque contribuir de alguma maneira com a sociedade. Por isso, junte seus (suas) companheir@s de blogagem e faça da blogosfera um mais produtivo e engrandecedor. E conte com a gente para que sua iniciativa contamine mais e mais pessoas!

      Se puder divulgar a gente em seu blog, seremos muito gratos!

      Viva a democracia!
      Michell Niero

      Responder

      Comment by Michell Niero — July 29, 2009 @ 4:15 am

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