Adeus Ao Xavier

Liliana | Agora que eu sei disso, posso morrer em paz.,Filosofando | Sunday, June 8th, 2008

Saindo do Cartório Eleitoral na sexta-feira, com um estado de espírito não muito bom, recebo uma ligação no celular desesperada pedindo que eu me dirigisse até a casa de minha amiga para examinar o Xavier.

“Acho que ele está morrendo.”

Nem falei nada. Só respondi: estou indo. E fui.

Eu sabia que ele havia piorado. Ele não reagiu bem. Não se levantou. Estava hemiplégico. Teve complicações pulmonares. Na minha opinião seu coração não estava bom (embora os veterinários dissessem ao contrário). Então eu no fundo sabia que ele mais cedo ou mais tarde iria morrer.

Meu treinamento de neurocirurgiã e anos de experiência me dão essa visão fria e certeira.

E quando eu o vi, estava lá um paciente morrendo. Foi só bater o olho e eu já sabia tudo. Médico tem disso. A respiração, o olhar, o jeito. A gente sabe.

E minha amiga queria que eu examinasse o inexaminável.

Eu sentei no sofá. Fumei um cigarro. Tomei água. Conversei um pouco. Enrolei.

Enrolei.

Ela ficou falando que já tinha decidido que queria que ele morresse. Que ela sentia que não tinha mais jeito. Que ele não ia melhorar. Que havia passado a noite anterior ao lado dele no colchonete no chão, se despedindo. Abraçada.

Eu assenti confirmando que ele não ia melhorar e que ele estava morrendo.

Ele alternava períodos de lucidez e coma.

Mesmo assim, eu o examinei como ela pediu.

Ela descreveu o enterro que já estava planejado. E o velório em casa.

E tentava fazer ele beber água e oferecia ração batida no liquidificador. Ele às vezes tomava água.

“Vou ligar para o Alexandre” – o veterinário, para sacrificá-lo. “Não aguento mais.”

Eu quis ir embora porque não queria ver o Xavier ser morto. Eu não aguento mais mortes. Eu não aguento mais sofrimentos. Quis sair correndo dalí.

Mas não consegui.

Chorei e chorei pelo Xavier e por todas as mortes da minha vida. E tive a sensação que eu não quero mais ser médica. Eu já vi muita tristeza. Já deu. Cansei.

E não quero mais ter que ser forte. Super-heroína. Só uma mulher normal.

E como mulher normal eu chorei e desabei de tristeza pelo cachorro que eu tirei da rua. Batizei de Xavier. Briguei com veterinários que não queriam tratá-lo de uma pneumonia porque achavam que era cinomose há 10 anos atrás. Eu o alimentei, o vi se recuperar dos maus tratos do abandono. Comprei coleira e guia. E quando ele estava bem bonito, o dei de presente para esta amiga que o acolheu por estes 10 anos. Arrependi-me tanto de não ter ficado com ele na época que depois fiquei com o Gigio, seu irmão gêmeo.

E a Liliana frágil não tinha condições de pegar estrada para voltar para casa. A Liliana forte poderia se obrigar a fazer esforços sobre-humanos e enfrentar 60 km. Mas a Liliana que surgiu, a que se cansou, não. Esta preferiu ficar quieta num quarto enquanto o veterinário dava a injeção. Esta dormiu num sofá-cama com roupas emprestadas na casa de uma amiga que a acolheu para viajar só quando estivesse bem para viajar.

Esta acordou no dia seguinte renovada e foi num Café novo tomar o desjejum. E achou o dia lindo.

E fez mil planos.

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  • 7 Comments »

    1. [...] reais de investimento, ela estava curada e faria compania para nós por bastante tempo, assim como Xavier fez para a amiga da Liliana. A pequena guerreira gastou sua primeira [...]

      Pingback by blog do Cobra » Minha homenagem, em vida, à uma fiel escudeira — June 9, 2008 @ 1:23 am

    2. :(
      Nem quero pensar quando a minha se for…

      Responder

      Lele reply on June 9th, 2008 1:21 pm:

      Nem me fale… meu Beau tem 5 anos! Espero que fique comigo por muito tempo ainda….

      Responder

      Comment by Ma — June 9, 2008 @ 1:47 am

    3. Meu sinceros pesares.

      Com certeza ele está perto da minha querida e saudosa “Jamaica”

      abs

      Responder

      Comment by Pedro — June 9, 2008 @ 10:48 am

    4. não é fácil mesmo ser mulher-maravilha o tempo todo…
      seja apenas a Li que está ÓTIMO!!!

      beijao

      Responder

      Comment by Lele — June 9, 2008 @ 1:20 pm

    5. É… Eu sempre disse que havia outra Liliana, muito humana, por baixo da máscara de Liliana Borg/Vulcana…

      Responder

      Comment by Enio Luiz Vedovello — June 9, 2008 @ 1:34 pm

    6. Inevitavelmente perdemos amigos…triste assim…
      Chorei! Esse é um amor verdadeiro e cheio de trocas.

      Beijocas

      Responder

      Comment by Aninha — June 9, 2008 @ 2:23 pm

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