O Natal na Casa dos Ateus

Liliana | Admirável Mundo Velho,Filosofando,Política não vivemos sem. | Monday, December 24th, 2007

Quando alguém entrava na casa de meus avós para a ceia na véspera de Natal ninguém dizia que eram ateus.

E era essa mesma a intenção deles.

Durante o resto do ano, não se falava em religião, deus, ou Jesus. Poderíamos discutir Platão, Sócrates, outros filósofos e políticos. Mas santos e deuses, não.

Uma vez por ano minha avó recebia amigos e parentes com a casa toda arrumada para o Natal. Organizava a ceia, montava presépio, árvore, até tinha uma mini-procissão da criança mais nova que levava o menino Jesus para o presépio à meia-noite. Cantávamos músicas natalinas, havia jogral, troca de presentes e um entra e sai de gente que tinha que marcar presença na casa deles ano após ano.

Era um acontecimento social o Natal.

Aquela época eram tempos de vaca gorda. Muita fartura.

Conforme o tempo foi passando, as vacas foram ficando magras e meus avôs foram ficando mais velhos e as pessoas foram rareando no Natal até que pararam de ir. Sem fartura, sem pessoas.

Analisando agora, mais velha, entendo o porquê de atitude tão paradoxal: ateus comemorando o Natal em tão grande estilo.

“Quando em Roma, faça como os romanos.”

Era uma época política que não se podia chamar a atenção para si. Combinada com o desejo de interação social de minha avó.

Por algum tempo chamei-os de hipócritas. Hoje eu entendo.

Não concordo com o que faziam, mas entendo.

Minha avó me passou uma lição errada de que eu tinha que fingir ser uma coisa para ser aceita na sociedade, enquanto em casa, éramos outra. O amadurecimento me permitiu descartar as lições erradas de meus ascendentes e ser eu mesma.

Essa era a vida de uma família atéia na ditadura militar.

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  • 7 Comments »

    1. Olá,

      olha, eu entendo também essa situação, de ateus comemorando o natal. Primeiramente, até para nós, os ateus, o natal pode ter algum significado, separado da religião. É uma oportunidade de encontrar a família, participar de um evento social. E nada impede de usarmos esse período como um momento de reflexão.

      E, realmente, creio que naquela época não devesse ser muito fácil ser diferente. Minha família tb é composta de ateus, mas ao contrário da sua, não fazíamos uma grande comemoração nessa época. Porém, por morarmos em uma cidadezinha composta unicamente por Católicos e Luteranos, onde quem não fosse de um dos dois grupos era mal visto, a falta de religiosidade nunca foi muito escancarada. Não havia nenhuma grande festa no natal, mas ninguém da cidade sabia disso. E acho que não valeria a pena entrar em conflito por causa dessas diferenças.

      E, conflitos sempre ocorriam qdo alguém manifestava sua diferença. Alguns amigos meus, já na adolescência, tinham medo de mim porque ouviam falar que quem não era batizado virava lobisomem! (!!!!) Mas eu podia me dar ao luxo de entrar nesses conflitos, desenhar bíblias queimando durante minha adolescência rebelde, só para chocar. Mas para meu avô, comerciante respeitado e conhecido, isso poderia ser problemático. Enfeitava a loja com motivos natalinos e referências a Jesus, mas em sua vida íntima aquilo não tinha a menor importância.

      P.S. A propósito, adorei o conto do pen drive do senhor! Morri de rir, ainda mais que não conhecia o concurso qdo li seu post, não estava esperando aquele desfecho! ;-) Parabéns! Sinto muito que algumas pessoas não estejam preparadas para simples brincadeiras. Tenho certeza que Jesus (pra quem acredita nele) teria senso de humor.

      Responder

      Comment by Christian Gump — December 24, 2007 @ 3:49 pm

    2. Ahhh eu tb entendo essa ‘política’ da época de ateu comemorar o Natal, mas tb devia ser dificil, fico imaginando, comemorar algo que não vê sentido!
      Bom a família de mamys e papys sempre acreditaram e por isso acreditei, desacreditei uma época, mas hoje em dia acredito e muito!
      Cada um com sua Fé, te desejo de coração Li uma Natal cheio de paz e amor, que tudo de bom aconteça para ti!
      Bjs

      Responder

      Comment by Dricota — December 24, 2007 @ 4:15 pm

    3. Sabia que Jesus não nasceu em dezembro? O Natal foi instituido nesta época do ano pela Igreja para se aproveitar de uma festa pagã que existia na época. Algo ligado a festa de colheita, ou outro assemelhado.

      Não concordo com uma letra quando você chama os seus avós de hipócritas. Hipócrita é quem não entende o comportamento deles e critica (Goethe fala bem quando diz que as pessoas costumam zombar daquilo que não compreendem). Felizmente você hoje entende.

      DÁ-LHE GRÊMIO!!!

      p.s.: Boas Festas (para os ateus, cristãos, muçulmanos, judeus, hindus,…)

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      Comment by Guillermo — December 24, 2007 @ 4:45 pm

    4. Eu sou ateu liliana, mas nao conto aos 4 ventos. Tenho certeza que minhas avós não me entenderiam, então, prefiro que elas pensem que eu sou cristão como todos. Quem me conhece sabe que eu não acredito, mas deixa minha familia distante achar o que quiserem.

      Prefiro isso a ter q ficar ouvindo no que devo ou não acreditar!

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      Comment by Caloã — December 24, 2007 @ 7:05 pm

    5. A despeito de qq coisa, o mais importante é deixar fluir o sentimento bom q habita em um bocado de gente nessa data. E é por ele q eu e a Blondie te desejamos tudo de bom q vc merece, hj e sempre. Beijos!

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      Comment by dagwood — December 24, 2007 @ 8:22 pm

    6. Belo relato…

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      Comment by Ulisses Adirt — December 25, 2007 @ 8:26 am

    7. Muito interessante o relato. Infelizmente, eu tenho visto alguns jovens defendendo a volta de um regime militar. Lamento, pois eles não têm a menor idéia do que foi aquilo.
      E seus avós foram, sim, bastante corajosos.

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      Comment by Enio Luiz Vedovello — December 26, 2007 @ 1:29 pm

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