Meu inseparável canivete suíço
Eu tenho mania por canivetes suíços desde criança. Ganhei meu primeiro bem pequena mas este foi confiscado quando eu quis matar minha irmã depois dela me fazer perder a paciência. Eu devia ter nem sete anos.
Já maior de idade, herdei de meu pai seu canivete com cabo de tartaruga. Lindo. Mas não sei onde foi parar, infelizmente.
Gente como eu que tem atração por facas costuma virar cirurgiões. E quando entrei na residência de neurocirurgia me reuni com outros que também tinham mania por canivetes. Lá, não só se gostava de canivetes, como era quase obrigatório se andar com um.
Eu passei a levar um bonito canivete suíço vermelho na bolsa, que está comigo até hoje e me põe em situações bem engraçadas toda vez que tenho que passar em portas giratórias de bancos.
A gente realmente usava nossos canivetes. Nunca precisei operar ninguém com o meu. Lembrei, já precisei sim, mas foi coisinha simples. Mas já o usei para fazer gambiarras nos tubos de oxigênio, fazer ligações elétricas nos plantões, cortar coisas, abrir coisas, enfim, eram exaustivamente usados por todo o hospital.
Hoje, já não dou mais plantões e essa vida de “M*A*S*H*” já ficou para trás, porém, ainda utilizo meu canivete pelo menos umas 3 vezes por semana no meu dia a dia, tal ele já está absorvido na minha rotina.
Quando li esta notícia, sobre o cirurgião que teve que operar o bandido com canivete, me lembrei de um colega meu neurocirurgião que estava dando plantão num hospital de periferia e por acaso passou por um quarto e viu um paciente morrendo no leito por causa de um hematoma dentro da cabeça. O cara já estava em coma e quase morto e não teria tempo de ser levado à sala de cirurgia. Meu amigo, que também sempre andava com seu canivete, abriu um buraco no crânio do paciente e drenou o hematoma na hora mesmo e salvou a vida do sujeito usando apenas seu canivete suíço. Passada a emergência, pode levar o paciente para o centro cirúrgico e terminar a operação.
Esses fatos eram quase rotina na nossa vida de neurocirurgiões.
E isso me lembra também o lema dos neurocirurgiões que tinha grudado na parede da nossa sala:
“Neurosurgeons are not better or worse than other doctors. They are only different.”
Este post é em homenagem a todos os cirurgiões e em especial aos da Neurocir.

E tem aquela notícia de que em alguns hospitais da rede pública são usadas furadeiras normais na falta das específicas para cirurgias. Estão questionando a possibilidade de infecção hospitalar. Mas demonstra como os médicos são bons, e como têm que se virar na rotina dessa pobreza que anda a saúde pública.
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Comment by Cristina L. — October 24, 2007 @ 2:21 pm
Tina, na minha época, a gente usava era Black and Decker mesmo, igualzinha que eu tinha em casa. Tanto que até hoje sou eu que penduro coisas aqui. Sou boa de furar. Mas a esterilização das furadeiras era primorosa. Usar furadeiras comuns nunca foi problema. As brocas é que eram especiais para neurocirurgia. Quando nos deram uma furadeira a bateria sem fio foi uma festa! Mas isso faz mais de vinte anos atrás. Não sei dizer como está a situação atual. Se existe lugar usando ainda furadeira normal, é só fazer a esterilização corretamente que não tem erro. Mas precisa ter as brocas certas.
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Comment by Liliana — October 24, 2007 @ 2:49 pm
Foi o que pensei. A matéria tem o enfoque errado. Não é problema a assepsia, o problema é que falta instrumento.
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Comment by Cristina L. — October 24, 2007 @ 4:07 pm
McGyver da medicina.
Minha namorada sempre fala que médicos cirurgiões são os mais práticos do meio, os que gostam realmente de botar a mão na massa e resolver. Hoje ela tá em dúvida entre fazer residência em cirurgia geral ou neurocirurgia, mas está com medo por saber que existe muito preconceito contra mulheres nessa área. Será verdade? Ela devia frequentar mais o Chá de Hortelã.
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Comment by Nando — October 24, 2007 @ 8:49 pm
Manias
Trackback by Reflexões e perda de tempo — October 25, 2007 @ 10:49 am
Eu me lembrei de um professor de anatomia que tive, que comentava que na opinião dele, todo médico deveria carregar consigo um canivete, para uma eventual necessidade de traqueotomia de emergência. Lendo seu post percebi o quanto ele estava certo…
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Comment by Enio Luiz Vedovello — October 25, 2007 @ 11:20 am
Neurocirurgiões andam com canivetes suíços? Os designers (e aspirantes) andam com estiletes e lâminas.
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Comment by Fabiane — October 25, 2007 @ 3:54 pm
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