O Medo

O medo é um mecanismo que nosso organismo usa para nos avisar que nossa integridade está em perigo.

Podemos ter medo por nossa integridade física; medo de morrer, de nos ferir. E medo por nossa integridade psíquica, medo de perdermos nosso Eu.

Quanto ao medo de morrer, esse é um medo que todos nascemos com ele e obrigatoriamente aprendemos a lidar com ele durante nossas vidas. Uns o ignoram, outros o enfrentam, outros o sublimam. Mas todo mundo tem esse medo dentro de si. E para garantir nossa integridade nascemos também com o tal instinto de sobrevivência. E quando a gente está relativamente bem, saudável, o instinto de sobrevivência funciona bem direitinho.

Quando a gente sente medo reações neuro-endócrinas acontecem dentro de nós nos preparando para duas possíveis ações: a luta ou a fuga. Vem aquela descarga de adrenalina e você fica com o coração pulando, sua pressão sobe, você fica prontinho ou para sair correndo ou para pular no pescoço de quem ou o quê está te ameaçando. Você fica em estado de alerta vermelho. Se você fosse uma nave de guerra toda a tripulação estaria em seus postos de batalha, a nave estaria com os escudos levantados e as armas prontas e engatilhadas.

A nave de guerra pode ou não ir à luta. Ela pode fugir ou lutar. Depende do momento e da capacidade de decisão do capitão. A mesma força de motores usada para atacar o adversário é a usada para uma retirada estratégica para se proteger.

Problema hipotético: eu sinto muito medo. Eu fico em constante estado de alerta. Meu corpo reage como se eu fosse ter minha integridade atacada o tempo todo ou em muitas situações além da conta.

Aí você tem que fazer uma análise da realidade em sua volta.

A ameaça é real ou imaginária?

Se for real, o que eu posso fazer para não me expor numa situação na qual minha integridade possa ficar comprometida? Aqui as respostas vão ao infinito.

Se for imaginária, posso parar de imaginar que estou em perigo? Preciso de ajuda de profissionais (psicólogos, psiquiatras)?

Sentir medo constantemente não é natural de qualquer ser. O medo é para ser sentido em ocasiões especiais, quando necessário. E ele deve gerar ações dentro de nós. Ações para que paremos de sentir medo. Desde ações individuais, terapêuticas, ideológicas, até ações coletivas, sociais e políticas. Luta ou fuga.

O que não é saudável é viver em alerta vermelho. Literalmente o stress corroi.

O nosso corpo dá todas as dicas dos caminhos que devemos seguir. Basta ouvi-lo.

Para Além do Medo

Quero colocar aqui uma terceira opção que acontece na natureza quando um ser sente medo, muito medo e se vê sem poder escolher entre luta ou fuga.

Esta situação foi maravilhosamente retratada no filme The Deer Hunter e foi a cena de filme que mais me impressionou na vida.

Os caçadores estão perseguindo um veadinho pequeno e o seguem até um galpão. Eles o cercam com seus rifles de caça poderosos e o veadinho fica lá parado no meio deles, sem ter o que fazer. Não podia lutar ou fugir.

Então, o veadinho urina.

Este é o colapso do organismo quando não há opção nenhuma. Ele relaxa sua musculatura, solta seus esfíncteres. Esta é a situação mais indefesa e trágica que algum ser pode estar. Dali, só a morte. É o fim.

Assim, enquanto a gente puder lutar ou se retirar estrategicamente, ou mudar qualquer que seja a situação para pararmos de sentir medo, vamos nos mexer. Não aceitem o medo em suas vidas tão simplesmente. Coloque-o no lugar em que ele deve ficar.

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  • 4 Comments »

    1. Hunnn nunca havia pensado por este lado, interessante análise.

      Responder

      Comment by Thomas — May 30, 2007 @ 3:19 pm

    2. O medo é um mecanismo que nosso organismo usa para nos avisar que nossa integridade está em perigo[...]Quando a gente sente medo reações neuro-endócrinas acontecem dentro de nós nos preparando para duas possíveis ações: a luta ou a fuga. Vem aquela descarga de adrenalina e você fica com o coração pulando, sua pressão sobe, você fica prontinho ou para sair correndo ou para pular no pescoço de quem ou o quê está te ameaçando. Você fica em estado de alerta vermelho[...]
      Como dizia meu professor de fisiologia, não é a toa que esse sistema é chamado de simpático.
      “[...]Problema hipotético: eu sinto muito medo. Eu fico em constante estado de alerta. Meu corpo reage como se eu fosse ter minha integridade atacada o tempo todo ou em muitas situações além da conta[...] – Infelizmente, nos dias de hoje, diversas situações nos mantêm em estado constante de alerta, gerando os quadros de estresse. Um outro ótimo tema para você postar…
      “[...]Sentir medo constantemente não é natural de qualquer ser. O medo é para ser sentido em ocasiões especiais, quando necessário[...]” E esta é a principal razão da enorme lista de problemas causados pelo estresse.

      “[...]Quero colocar aqui uma terceira opção que acontece na natureza quando um ser sente medo, muito medo e se vê sem poder escolher entre luta ou fuga[...]” – Não vou citar muito mais do seu texto aqui, para não alongar demais o post. Mas acho interessante comentar um pouco mais, aqui.
      Todos nós sentimos medo. Exceto na situação-limite de não termos nada a perder. E, quando já perdemos tudo, não temos mais nada a perder.
      Na minha opinião, foi isto que aconteceu ao animal. Quando percebeu que não tinha mais qualquer chance, entregou-se à situação, deixou-se levar. Sem o medo, as defesas cairam, o sistema parassimpático agiu, os esfincteres relaxaram e ele urinou. Impotente. Desistindo… Exausto…
      Tivesse ele um pouco mais de energia, e talvez o resultado pudesse ser outro. Partir para uma tentativa de ataque aos caçadores, para um “seja o que deus quiser”… Isto é imprevisível.
      O medo é uma força motriz poderosa. E como tal, precisa ser respeitado, e não tratado levianamente como as “modernas teorias de rh” preconizam.

      Responder

      Comment by Enio Luiz Vedovello — May 30, 2007 @ 5:30 pm

    3. Isso me lembrou que de um amigo que está com Sindrome do Pânico.
      Ele sente medo praticamente constantemente e sem motivo.

      Anyway, só porque estranhei que você não citou isto, pensei que se tratava sobre quando comecei a ler.

      Responder

      Comment by Lucas BiM — June 3, 2007 @ 1:41 am

    4. Eu sempre lembro de Belchior qdo ouço a palavra “medo”. Vc lembra da música? Pois é. Eu sinto q, além dos indicadores biológicos q vc citou com maestria, no fundo, os precipícios e monstros q nos aterrorizam são criados pela nossa própria imaginação, como uma fuga, e não apenas uma defesa. Temos q elaborar mais isso… Beijos

      Responder

      Comment by worklover — June 3, 2007 @ 3:42 pm

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