Quando você compra terra a coisa mais importante que você tem que saber é se tem água no seu terreno. E se não tiver, se alguém vai te fornecer a água, de onde ela vem, como é o suprimento para você não ficar sem ela de jeito nenhum.
O bem mais precioso que existe no mundo é a água. Não é papo de eco-chato não. Estou falando sério. O negócio é água.
Bem, eu fiquei apaixonada pelo terreno pertinho da cidade, face norte, com uma vista linda da Serra da Mantiqueira. Mas tinha um detalhe: não tinha água. Ele ficava entre duas nascentes, dois valezinhos de onde brotam riozinhos que vão dar em rios maiores. E o terreno, uma encosta de um morro, sequinho, sequinho.
O cara que estava vendendo me garantiu: “não se preocupe com a água. Tem a nascente aqui do lado que serve todas as casas da rua e também vai fornecer para o seu terreno.” Uma vez que a pessoa cede o uso da água, é para sempre. Está na lei. Então, fiquei tranquila.
Água da SABESP a gente nunca teria, embora fosse do lado da cidade, porque tinha o rio dividindo a gente do encanamento que fornecia água. Então, nos conformamos que teríamos de fazer um sitema de bombeamento desde a nascente que ficava do outro lado do nosso vizinho, lá embaixo, até o platô de cima.
Na nascente o negócio era o seguinte: quem chegava por último pegava a água que sobrava. E a gente era o último então nossa caixa d’água ficou por último na fila de caixas d’água pegando o que sobrava do ladrão da penúltima caixa. Dessa caixa saía um cano de borracha preta e grossa com uma bomba “náuger” que jogava a água até o meio do meu terreno, passando enterrado pelo meio do terreno do meu vizinho até outra caixa d’água. Que ficou conhecida como a caixa d’água da Curva da Caixa D’Água na minha estrada. Lá, outra bomba bombeava para outra caixa d’água no platô de cima, que dessa vez, distribuia para o terreno, mandando outra borracha lá para baixo e para uma torneirinha perto.
Tudo isso nos custou uma grana razoável que a gente penosamente pagou para levar água para o terreno. Mas ficamos contentes, porque finalmente tínhamos água e “para sempre”.
E cada coisa que a gente fazia no terreno parecia uma poupança. Enquanto vinha “gente de São Paulo” e construía suas casas com aparente facilidade e rapidez, nós continuávamos morando na casinha pequenina alugada e esperávamos meses até ter o dinheiro para fazer outra melhoria no sítio.
Nesta época já tínhamos contratado nosso camarada, o cara que fica trabalhando no terreno. Chamava, é claro, Seu Zé. Esse era o Zé da Serra. Porque agora trabalha comigo outro Seu Zé, o Laureano, muito melhor. E Seu Zé vivia reclamando que sempre faltava água. E ele não podia fazer nada, porque não tinha água.
E meu marido vinha apenas nos fins de semana. E o queridinho tinha que se enfiar na nascente e ficar mexendo na bomba para ver se tinha algo errado. Mas ele entendia tanto de bomba náuger quanto Seu Zé de neurocirurgia. Então, ficava trocando de bombas. Punha a de baixo, em cima; a de cima, embaixo. Levava para o concerto. Trazia de volta na semana seguinte. Chamava o eletricista que punha a culpa na oscilação de voltagem da instalação elétrica das bombas. E isso durou meses.
Nove meses para ser exata. Nove meses sem água.
Seu Zé, o primeiro peão workahoolic que eu vi na vida, ficou se queixando os 9 meses sem parar que não tinha água e que não podia fazer nada. A gente não tinha dinheiro para fazer nenhuma outra melhoria no terreno. Ele dizia na cara dura que a gente era pobre. Que a gente tinha que arrumar dinheiro. Que precisava construir logo. Que precisava colocar canaletas na estrada (essa é outra boa história, as canaletas). Que ele não podia fazer hortinha. O homem era terrível. Eu fugia do Seu Zé e nem aparecia no terreno para não ser chamada de mesquinha nem que estava escondendo o ouro.
Tempos difíceis aqueles.
Uma secura total.
“Eu não posso plantá planta!”
Horrível.
Ele ia em casa reclamar.
Numa das idas na nascente, meu marido descobriu um fato estarrecedor: além de ter um lagarto enorme que ficava olhando para ele sem parar, a nossa caixa d’água estava furada. Alguém fez um furo bem embaixo na caixa, provavelmente com uma chave de fenda.
Tchãrãã…
O furo foi consertado mas nossa visão dos acontecimentos começou a mudar.
E começamos a olhar em volta. E ainda estávamos sem água.
Foi quando percebemos que havia muitas casas e pouca nascente. A gente bem que deu umas mudas de árvores para o dono da nascente reflorestar em volta para segurar mais água, mas ele não quis. O filho dele abriu uma pousada na rua, o que significava mais gente usando a água da exígua nascente. Um desentendimento com outros vizinhos foi uma boa desculpa para o corte de fornecimento para umas 3 casas do fim da rua. (Esse pessoal , numa ação terrorista e desesperada, acabou invadindo o terreno da outra nascente e roubou a água de lá.) Ahnnn…
Sabotagem. Pura e simples sabotagem.
Logo em seguida Seu Zé entrou furtivamente no terreno do vizinho e foi acompanhando nosso cano de borracha enterrado e descobriu que ele havia sido desenterrado e cortado. E quando nossa bomba funcionava, bombeava água para fora, para a grama do vizinho. Nós nunca tivemos problemas com as bombas.
Como diz a mocinha do anúncio de carro: tudo bem.
Vamos ficar sem água. Agora quem não quer esta água sou eu. Eu sou chata, chata.
A porra da nascente está secando porque não cuidaram. Colocaram gado lá para pisotear em cima. Tiraram toda a vegetação em volta. O clima está mudando e os períodos de seca pioraram. E queriam a pouca água que restava só para eles.
Então tá.
A solução do Sítio Paineira Velha: eu juntei dinheiro por um bom tempo e mandei fazer um poço daqueles de oitenta metros de profundidade. A água que sai dele vem direto da rocha escavada. Água mineral pura e límpida. Maravilhosa. A vazão dá para abastecer quase que a cidade inteira (mas eu uso só um pouquinho e economizo porque água é um bem precioso e só porque eu tenho não vou gastar à toa).
Demorou mas eles vieram me pedir água.
E eu claro, disse… NÃO.
PS- da construção do poço até poder usá-lo efetivamente demorou 2 anos porque não tínhamos energia elétrica para usar a bomba do poço. Essa é outra história….