Ortotanásia
Ai, ai, ai. Uma amiga me perguntou hoje o que eu achava da ortotanásia. Fui ver direitinho do que se tratava. Li um texto ótimo de biodireito, fiz uma pesquisa no meu CRM, lembrei-me de minhas experiências pessoais e profissionais (sou neurocirurgiã) e respondo agora: não gosto nada disso.
Simplificando, na eutanásia você provoca a morte. Na distanásia, a morte ocorrre com sofrimento. A ortotanásia significa literalmente morte correta. No caso, colocam a ortotanásia como o contrário da distanásia, como uma morte “sem sofrimento”.
Não é bem assim.
Ortotanásia é o processo natural de morrer, sem interferências.
Conheça Seu Adaílton, 83 anos, aposentado. Mora com a família da filha no quarto dos fundos e passa o dia vendo televisão, adora o Ratinho.
Um dia, Seu Adaílton começa a tossir com catarro grosso no peito e a filha Jurema o leva no convênio. O médico diz que é gripe.
No dia seguinte, Seu Adaílton está muito pior, prostrado na cama, não consegue comer nem beber. A filha põe no táxi e leva no pronto-socorro do hospital do convênio. Agora ele já está com pneumonia. É assim com idosos, imunossuprimidos e deficientes, eles pioram rápido.
Num mundo sem “ortotanásia”, Seu Adaílton recebe o antibiótico e tem grandes chances de ficar bom e voltar para sua vida de aposentado.
Com a “ortotanásia”, ele pode ser considerado em “processo de morte”. E por isso, por escolha do médico ou de seus familiares, pode não receber o tratamento para a pneumonia para que seu sofrimento acabe logo. Afinal, ele já tem 83 anos, é aposentado, só fica vendo televisão, não consegue mais comer, é um peso para a família, etc., etc..
Conheça o bebê dos Antunes. Nasceu com meningomielocele e pegou meningite. Com a “ortotanásia”, não precisamos tratar esta meningite se o bebê estiver muito mal, porque ele já está morrendo.
Eu acho muito perigoso deixar na mão de gente como eu e você quem vive e quem morre.
A morte é a única coisa irreversível.
Sofrimento não é desculpa pois temos drogas maravilhosas que aplacam qualquer dor, nem que tenhamos que deixar a pessoa em coma. Mas morte? Para mim, nunca.
E por favor, não sejam ingênuos. A ortotanásia só foi aprovada por razões político-econômicas. Significará uma economia enorme para os convênios, a previdência, o governo. Ninguém fez isso pensando no bem-estar dos doentes não.
Assim, eu como médica, tenho a seguinte postura: eu trato o paciente com todo o arsenal que me for disponível e faço o possível para manter a pessoa viva. Enquanto há vida, há esperança. É claro que não estou falando de morte cerebral, que é o mesmo que estar morto e é uma situação muito especial e irreversível.














Um monte de situações 50 anos atrás que seriam bons candidatos a ortonásia hoje são tratados de forma quase trivial. 400 anos atrás apendicite era morte certa. E por aí vai.
Portanto essa coisa de “morte certa” é relativa. Se é arbitrário, não havendo morte cerebral OU decisão do paciente, acho que é dever dos envolvidos usar todos os meios conhecidos para prolongar a vida do paciente.
Senão viramos todos TJ / Amish, abolimos transfusão de sangue e transplantes em geral, vacinas e antibióticos, e teremos leitos sobrando nos hospitais.
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Comment by cardoso — December 18, 2006 @ 8:59 pm
concordo com você, liliana.
saber que morreremos e ter a possibilidade de escolher qual o caminho que trilharemos dá uma sensação de dignidade e segurança para quem parte.
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Comment by alberto — December 19, 2006 @ 10:18 am
Tinha um filme que retratava uma sociedade “no futuro”, na qual a pessoa era obrigada a se suicidar quando fizesse 30 anos. Isso passou lá pelos anos 70 e parecia uma coisa muito distante. Agora, com esse negócio de ortotanásia, está quase. Nessa marcha, o próximo passo será o extermínio de velhinhos improdutivos, para dar lugar a jovens saudáveis e em plena capacidade de produção e reprodução. Todos, obviamente, muito loirinhos. Acho que também já vi esse filme…
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Comment by Denis — December 19, 2006 @ 3:36 pm
Achei que houve um certo exagero com os exemplos. Creio que a ortotanasia se aplique em casos nos quais não existe mais o que ser feito para salvar a vida do paciente. Mante-lo vivo apenas por manter é muito mais cruel do que deixa-lo morrer.
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Comment by Valdir — December 20, 2006 @ 3:22 pm
É…..cada cabeça uma sentença…mas….convenhamos que os médicos perderam o senso do limite da ressucitação, que é e deve ser um direito PESSOAL. em países mais esclarecidos a pessoa tem o direito de nãos er ressucitada, constando inclusive tal opção em documento. Tenho na família um ente querido em coma há dois anos, por falha médica. A pessoa faleceu e o médico principal que estava atendendo declarou o óbito, mas, um outro despreparado, em um súbito arroubo injetou no soro que que eu segurava, adrenalina e outras drogas mais, após mais de 10 minutos e a paciente retornou com lesão cerebral. O que é de bom alvitre deixar claro, dra. Liliana é que nem todos levam tal situação para o lado de que aquele paciente em coma é um peso e sim, que aquele paciente comatoso está sofrendo calado e sem poder reagir, mormente quando tal paciente era pessoa de grande atividade na vida, e já havia pedido para nunca deixá-lo vegetando. Cabe uma reflexão mais aprofundada e séria a quem somente LÊ sobre o assunto, devendo parar para OUVIR mais a quem está vivenciando a dor de ver seu ente querido percebendo tudo e nada podendo fazer e muito menos nós.
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Comment by Gladys — January 5, 2007 @ 1:56 pm
Gladys, concordo plenamente. Desculpa, liliana, mas acho que vc nao entendeu direito sobre a ortotanasia. Nao e assim, para deixar a pessoa morrer em qq circunstancia. ´E apenas para casos irreversiveis e nao é para suspender TODO o tratamento ou cuidado e sim, apenas os extraordinarios. Assim como Gladys, tenho um parente, me pai, em coma ha mais de 2 anos. Ele tinha 76 anos de idade e sofreu parada cardo respiratoria dentro de um quarto de hospital. Meu irmao, que estava com ele, dormia e nao percebeu nada. Um bom tempo depois, quando um auxiliar percebeu, chamaram os medicos e ressussitaram meu pai. No mesmo dia ele teve mais 6 paradas cardiacas ate estabilizar. Sera que a ressussitacao tem que ser feita em todos os casos! Meu pai ja estava com o corpo frio, pq nao deixaram ele em paz! Sera que nenhum medico percebeu que, apos 6 paradas cardiacas, o caracao dele nao queria mais bater. Liliana, certamente vc nunca teve um parente em coma. E claro que nossa vida muda, mas nem por isso, meu pai passou a ser um peso, mas nos sofremos por ve-lo nessa condicao. Eu, inclusive ja avisei minha mae e meu marido que se meu coracao parar, nao quero ser ressussitada de jeito nenhum. Prefiro morrer em paz!!!E é um direito meu!
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Comment by glaucia — March 11, 2007 @ 2:22 pm
Gláucia, sinto a sua dor como sinto a minha. Mas, ao ler suas palavras também senti que só o fato de alguém mais falar sobre o familiar em coma vegetativo e do sofrimento que temos por ver aquele ente querido tão frágil para cuidar da própria vida, já é um alento. Que Deus te dê serenidade a você e sua família para que possam, como eu tento, acreditar que tudo tem um porquê. Tomara que tenha. Um grande abraço, Gláucia.
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Comment by Gladys — March 27, 2007 @ 1:42 pm