Vida Inacreditável
Tenho trocado emails com o André que achou que era brincadeira eu ter comprado o buggy e a casa aqui em Gostoso.
Eu gosto da liberdade de mudar de rumo a hora que eu quiser.
Aqui em Gostoso eu conheci duas pessoas completamente diferentes: uma que está infeliz e veio para cá pensar na vida mas não tem disposição de mudar por “n” razões e impecilhos que ela mesma se coloca, “porque dá trabalho” e outra que resolveu morar aqui e que disse ser parecido comigo.
Pois essa pessoa que disse ser parecido comigo tem uma vida inacreditável.
Ontem num barzinho, ele ficou me contando seu ano que ele passou servindo na Legião Estrangeira treinando soldados do Cambodja contra o Khmer Vermelho. Contou das missões suicidas dos amigos e de como eles não voltavam. Contou como seus valores mudaram e de como se tornou mais humano com esta experiência na Tailândia.
Depois, me contou como foi trabalhar no Afeganistão na época da ocupação russa e foi sequestrado por duas semanas e ficou andando por túneis sem ver a luz do sol só fumando ópium e sem comer. Apenas tomando água e chá. Ele e os outros dois sequestrados andaram por mais de 150 km por túneis até serem libertados numa cidade completamente intoxicados tendo que ficar uma semana num hospital até poderem dar entrevistas para os jornais e a TV. Ele disse que até hoje não sabe se foi pago resgate. Só sabe que foram entregues para a Cruz Vermelha. Eles e os sequestradores todos fumados de ópium o tempo todo, todos muito calmos, num clima estranho, andando e andando. Perguntei se ele teve stress pós-traumático após o sequestro e ele disse que não, estava muito louco. Que apenas tem sonhos da época da Legião Estrangeira, chamando-o para voltar, como eu, tendo sonhos da época dos plantões da neurocirurgia, chamando…
É uma adrenalina, ele diz.
Eu entendo, respondo.
“Hoje eu quero que não me encham o saco. Só isso.”
Pois eu também, temos esse lema em comum.







